Caiena: mapa do comércio

Mapa particular das importações e exportações entre a colônia de Caiena e Guiana e os portos do Pará, Maranhão, Pernambuco e Lisboa no ano de 1813. O documento mostra os principais produtos comercializados, dos quais constam as especiarias, vinho, arroz, carnes, azeite, e diversos outros gêneros que serviam como moeda de troca no comércio internacional.

Conjunto documental: Documentos Diversos
Notação: caixa 1192
Datas-limite: 1792-1816
Título do fundo: Caiena
Código do fundo: OF
Argumento de pesquisa: Caiena
Data do documento: 1813
Local: Caiena
Folha (s): -

 

"Mapa Particular das Importações e Exportações entre a colônia de Caiena[1] e Guiana, e os Portos do Pará[2], Maranhão[3], Pernambuco e Lisboa[4], no ano de 1813, mostrando o valor dos gêneros importados ou exportados, e a dos Direitos pagos por estes mesmos gêneros.

Importações   Valor das Importações            Direitos pagos
Vindo do Pará
Cacau[5]         £ 59.000                            Réis[6] 18.045$714
Sabão             £[7] 1800                          Réis 137$143
Salsaparilha[8] £ 210                               Réis 111$428
Açúcar[9]        £ 3030                              Réis 238$400
Arroz[10]        £ 3489                              Réis 186$000
Carne seca e peixe seco £ 270                  Réis 14$857
Farinha de mandioca Alqueire845              Réis 1:352$000
Azeite[11], manteiga e outros comestíveis Réis 68$572
Fazendas diversas Réis 1:654$743
Total     Réis 7:808$857                            Réis 91$781
Vindo do Maranhão e Pernambuco
Açúcar          £ 18352                             Réis 1550$628
Arroz             £ 42080                            Réis 1766$857
Farinha de mandioca Alqueire 191            Réis 306$286
Carne e peixe seco  £ 139.924                 Réis 7.086$400
Vinho[12], azeite e outros comestíveis Réis 4.546$743
Fazendas diversas Réis 7.005$383
Escravos 39 Réis 6.262$857
Total  Réis 28.525$154                            Réis 450$968
Vindo de Lisboa
Vinho, licores, azeite, sal etc. Réis 1:659$657  
Tintas diversas, ferramentas para a agricultura e outras etc. Réis 999$074
Fazendas secas, chapéus, pano etc. etc.Réis  3.335$658
Total  Réis 5.994.389                          190$460
Total das Importações Réis  42:328$400                       Réis 733$209
Exportações Valor das Exportações     Direitos pagos
Para o Pará
Algodão[13] £ 5.771                           Réis 923$360
Urucum[14] £ 13.933                          Réis 906$046
Cravo[15]     £ 6550                           Réis 3:056$914
Pimenta[16] £ 259 Réis                               118$400
Café[17]      £ 177 Réis                                  9$200
Táfia[18]  Canada 14.370                     Réis 4:598$345
Fazendas diversas provenientes das importações na colônia 3:889$755
Total      Réis 13:496$020                   Réis 628$260
Para Pernambuco
Urucum  £ 15.961                             Réis 1:094$457
Cacau    £4.587                               Réis 314$537
Cravo     £ 4.784                              Réis 2:460$943
Café      £ 3.169                              Réis 484$285
Táfia     Canada 230                         Réis 73$600
Madeiras de cor £ 9.000                   Réis 54$857
Fazendas diversas provenientes das importações na colônia 1:175$543
Total     5:657$622                                 467$165
Para Lisboa
Algodão  £ 9.759                             Réis 1:256$091
Cravo     £ 3.796                             Réis 1:360$000
Simaroba[19] £ 150                        Réis  8$591
Madeiras de cor £ 5.000                  Réis 1:714$285
Táfia      Canada 6.000                     Réis 28$571
Melaços[20] Canada 2.000               Réis 536$434
Fazendas diversas provenientes das importações na colônia 528$642
Total      5.432$594                                303$831
Total das Exportações Réis 24:586$236  Réis 1:399$286

Vê-se do mapa acima que as importações dos portos do Brasil e de Lisboa na colônia de Caiena no ano de 1813 vão à Réis 42.328$400 Réis e as exportações para os ditos portos a 24.586$236 Réis, donde resulta um excedente das importações sobre as exportações da soma de Réis 17:742$164 Réis que deve ser considerado como pago em dinheiro."


[1] Capital da Guiana Francesa, situada entre a antiga Guiana Holandesa e o Brasil. Em 1809, Caiena foi ocupada pelos portugueses e a colônia francesa de além-mar  anexada aos seus domínios. Essa atitude do príncipe regente d. João foi uma resposta a invasão francesa sofrida por Portugal dois anos antes. Em 1814, com a derrota de Napoleão, a posse da colônia voltou a ser reivindicada pelo governo francês, agora sob o domínio de Luís XVIII. Como os termos da proposta francesa não foram aceitos por d. João, a questão passou a ser discutida pelo Congresso de Viena no ano seguinte. Nessas conversações, a França concordou em recuar os limites de sua colônia até a divisa proposta pelo Governo português. Entretanto, somente em 1817, os portugueses deixaram Caiena com a assinatura de um convênio entre a França e o novo Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Embora apenas por alguns anos, a conquista de Caiena permitiu aos portugueses o aproveitamento, na capitania do Grão-Pará de certas plantas raras importadas pelos franceses para o rico celeiro organizado, sob a denominação de La Gabrielle, que veio beneficiar a agricultura brasileira em particular a cana Caiena.
[2] Província do Brasil situada entre as atuais regiões do Amazonas e de Roraima. Sua fundação reporta-se à instalação do Forte do Presépio (1616), fruto da preocupação da coroa portuguesa em evitar a penetração  de corsários, sobretudo franceses, em seus domínios pelo rio Amazonas. Esse forte deu origem a cidade de Belém, capital do atual Estado do Pará. Foi através dessa província que, na década de 1720, foi introduzido o café no Brasil. Anos mais tarde, em 1796, ocorreu a criação do primeiro Jardim Botânico do Brasil, instalado em Belém-do-Pará. Criado para servir de modelo “a todos os outros que  viessem a se constituir na América Portuguesa”, o Jardim Botânico destinava-se ao cultivo e adaptação de árvores exóticas e plantas medicinais indígenas, atendendo a vertente utilitarista da Ilustração luso-brasileira que visava à exploração das potencialidades da colônia.
[3] A Capitania do Maranhão originou-se do sistema de capitanias hereditárias implantado por d. João III em 1535. Situada no Norte do Brasil, sua colonização coube ao tesoureiro e  cronista João de Barros. Em 1612, aconteceu a expedição francesa comandada por Daniel de la Touche, Senhor de la Ravardière, destinada à criação da França Equinocial. Os franceses construíram na região o forte e vila de São Luís, batizados com este nome em homenagem ao seu rei Luís XIII (1601-1643), fundando a cidade que se tornaria a capital do Maranhão. A capitania foi retomada pelos portugueses em 1615. Ainda no século XVII, o Maranhão mostrou-se uma região relativamente lucrativa para o comércio internacional, dada a presença das chamadas “drogas do sertão” e de alguns produtos agrícolas bastante valorizados para fins de exportação. 
[4] Capital de Portugal. A origem de Lisboa, como núcleo populacional é bastante controversa. Sobre sua fundação e origem, na época do Império romano, sobrevive a lenda mitológica da fundação feita por Ulisses. Alguns pesquisadores filiam o termo “Lisboa” no topônimo Allissubo (que significa enseada amena) com o qual os fenícios designavam a cidade e o seu maravilhoso Tejo de auríferas areias. Sua importância cresceu apenas na Idade Moderna, como centro dos negócios luso, sendo reconstruída nas reformas pombalinas em 1755, devido a um terremoto descrito na época como “aterrador” . 
[5] Theobroma cacao - espécie nativa da floresta tropical úmida americana, encontrado inicialmente nas nascentes dos rios Amazonas e Orinoco. Em 1746, as sementes de cacau foram levadas para Bahia e doadas a Antônio Dias Ribeiro. Ali, foi iniciado seu cultivo agrícola, que se tornou muito importante para a economia da região. Entre o mais famoso produto do cacau figura o chocolate, proveniente da prensagem, moedura e mistura a outros ingredientes, como o leite e o açúcar.
[6] Moeda portuguesa utilizada desde a época dos descobrimentos (séculos XV e XVI). Tratava-se de um sistema de base milesimal, cuja unidade monetária era designada pelo mil réis, enquanto o réis designava valores divisionários. Vigorou no Brasil do início da colonização (século XVI) até 1942, quando foi substituída pelo cruzeiro.
[7] Libra esterlina.  Unidade monetária e moeda inglesa, que após a revolução industrial começou a ser aceita internacionalmente.
[8] Planta originária do Brasil, também pode ser encontrada em demais regiões da América do Sul. Condimento e remédio, as raízes desta planta são referidas como anti-reumáticas, sudoríferas, em afecções da pele e no tratamento da gota. Exerce ainda ação estimulante sobre a digestão e o metabolismo em geral. Além disso, possui propriedades diuréticas, sendo um excelente depurativo do sangue.
[9] Considerado uma espécie de sal vegetal retirado de fontes variadas tais como da calda das canas doces e da beterraba. A produção açucareira foi para o governo português uma das maiores fontes de lucro comercial durante os séculos XVII e XVIII. O desenvolvimento das técnicas de plantio nas Antilhas e posteriormente no Brasil, além de vigorar a economia lusa, também aumentou o consumo do produto, que deixou de ser uma “substância cara e rara”, ou seja, especiaria.
[10] Planta de origem asiática, é o principal alimento e a primeira planta cultivada na Ásia. As referências mais antigas ao arroz são encontradas na literatura chinesa e indiana, que datam cerca de 5000 anos. O Brasil foi a primeira região a cultivar esse cereal no continente, com uma espécie indígena tupi: o "milho d'água" (abati-uaupé). No final do século XVI, lavouras arrozeiras já ocupavam terras na Bahia e, por volta de 1745, no Maranhão. A Coroa Portuguesa autorizou, em 1766, a instalação na cidade do Rio de Janeiro da primeira descascadora de arroz no Brasil, impulsionando a prática da orizicultura na colônia.
[11] Termo árabe que designa o óleo extraído da azeitona. Produto consumido em grande escala pelos europeus, foi bastante utilizado pelos portugueses no comércio ultramarino.
[12] Bebida alcóolica resultante da fermentação do sumo da uva sob o efeito de certas leveduras. A videira é originária da Ásia Ocidental e o seu cultivo foi introduzido na Europa pelos romanos. Os portugueses produziram vinhos que, ainda hoje, são famosos por sua qualidade, como o vinho do Porto e o vinho madeira, produzidos respectivamente na cidade do Porto e na Ilha da Madeira. Sobre o vinho do Porto, é importante ressaltar o grande interesse dos ingleses dado a sua resistência ao transporte. Bebida bastante apreciada na época,  o vinho (de qualidade inferior), assim como a cachaça, também era usado como moeda de troca no comércio ultramarino.
[13] Conjunto de fibras que envolve a semente do algodoeiro, que é uma planta de clima mais seco e de chuvas regulares, por isso mesmo típicas de regiões mais afastadas do litoral.  Também dá nome ao tecido fabricado com suas fibras.  O algodão foi um dos produtos secundários, porém relevante no comércio ultramarino português. Há relatos desde o século XVII, de que as roupas dos escravos eram feitas deste material. No século XVIII, houve um aumento do consumo britânico do algodão, impulsionando a produção deste nas colônias portuguesas, interessadas no lucro comercial.  A concorrência do algodão produzido nas Treze Colônias Americanas,  de menor custo e de maior qualidade, levou à decadência da produção algodoeira no Brasil.
[14] Substância tintorial de cor avermelhada extraída do fruto de uma planta da família das bixacéas. Era utilizada pelos índios brasileiros para besuntar seus corpos como adornos rituais, e na culinária lusa, como colorante e condimento em pó.
[15] Produto oriental utilizado amplamente pelos chineses e indicado como condimento, remédio, adorno culinário, perfumes especiais e incensos aromáticos. No século XVI, os portugueses dominaram o comércio do cravo-da-índia, aumentando seu valor no mercado internacional. Apenas no século XIX, a França venceu definitivamente este monopólio, pois a planta já era cultivada em grande escala em muitas regiões tropicais. No Brasil, o cravo-da-índia é cultivado em regiões quentes.
[16] Produto “raro e caro” no mercado, a pimenta era líder do comércio oriental das especiarias, devido às condições alimentares da época. São várias as espécies de pimentas existentes, tais como a malagueta, a pimenta-de-cheiro, dedo-de-moça, cambuci e a cumari. A pimenta de caiena é de uma espécie muito picante, derivada das malaguetas secas de um pimento vermelho. Usadas com moderação, as pimentas possuem funções medicinais tais como ativar a digestão e o metabolismo, e servem sobretudo para realçar e dar sabor aos alimentos. De um modo geral, as pimentas têm boas doses de vitaminas A, B e C, cálcio, fósforo e ferro.
[17] Planta da família das rubiáceas, nativa das montanhas etíopes, onde era consumido em pasta. Na Árabia do Sul,  foi introduzido o costume de se torrar os grãos do café e acrescentar água fervente ao pó,  produzindo assim uma bebida quente. No Brasil, esta cultura foi introduzida por Francisco de Melo Palheta, após sua expedição à Guiana na década de 1720. Desenvolvido inicialmente com importância secundária, tem seu auge no século XIX, movimentando até setenta por cento do volume de exportações do Império Brasileiro.
[18] Sinônimo de cachaça. Destilada do melaço, é um subproduto do refino do açúcar. Sua utilização foi extensa e variada no mundo português: moeda de troca no tráfico negreiro; produto “calmante dos ânimos” dos escravos nas travessias do Atlântico e “refúgio da dura vida” nas senzalas; dentifrício (limpeza bucal) dos portugueses e produto indispensável na ração das bandeiras. Desta forma, remontando a paisagem colonial como uma pintura descrita, certamente seria encontrado a figura do alambique. Até hoje, no Brasil, a “cachaça” - nome popular do aguardente - tem seu lugar de destaque.  Na África Central Ocidental, a aguardente tornou-se conhecida como “geribita”.
[19] Planta de raízes e cascas amargas, de grande uso medicinal.
[20] Líquido viscoso originário da cristalização do açúcar.