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Oriente

Expansão marítima

Escrito por Super User | Publicado: Quarta, 20 de Setembro de 2017, 19h52 | Última atualização em Quinta, 21 de Junho de 2018, 15h14

Tradução portuguesa feita por Luís Inocêncio de Pontes Ataíde e Azevedo da obra L’Administration de Sebastien Joseph de Carvalho e Mello, na qual são abordadas as explorações comerciais de Portugal na China e na Índia, bem como as incursões comerciais da Inglaterra e da França na região. Trata-se de uma narrativa histórica na qual o autor analisa as medidas tomadas pelo marquês de Pombal, restabelecendo os negócios com a Índia, traçando também um breve histórico da situação política e comercial da Índia antes da penetração portuguesa. O documento observa ainda a extensão cada vez maior das atividades comerciais de diferentes nações européias no Oriente.

Conjunto documental: Livro de 12 capítulos da administração de Sebastião José de Carvalho e Mello, conde de Oeiras, marquês de Pombal, secretário de Estado e primeiro-ministro de d. José I, rei de Portugal. 1786 
Notação: códice 1129, vol.1
Datas-limite: 1786
Título do fundo ou coleção: Diversos Códices - SDH
Código do fundo: NP
Argumento de pesquisa: China e Índia
Data do documento: 1786
Local: Lisboa
Folhas: -

“Tinha-se espalhado uma notícia na Europa, que devia haver um caminho mais curto para chegar à Índia, que o que se trilhava até então. Esta idéia tinha esquentado todos os espíritos. Um príncipe português[1] empreendeu só, o que nenhum soberano se havia atrevido empreender. Mandou fazer esta descoberta[2]. Não havia até então outra astronomia[3] na Europa se não a que os árabes tinham deixado; (...) Não se conhecia a geometria[4] que tem servido depois a medir os grandes corpos (...). A bússola[5] já era conhecida; porém ainda a não tinham feito servir ao uso que se empregou depois. (...) Os navios portugueses dobraram o cabo que está na extremidade d’África. A corte de Lisboa prevê, que se poderá abrir por aqui a passagem à Índia, o chamou Cabo da Boa Esperança[6]. Vasco da Gama[7] chega nesta parte d’Ásia depois de riscos, penas, e trabalhos (...). A passagem dos Portugueses à Índia pelo Cabo da Boa Esperança, é um dos grandes acontecimentos no nosso mundo. Esta descoberta avizinhando as partes as mais apartadas do globo, tem causado uma revolução[8] geral no gênio, nas artes, comércio, e indústria[9] das nações[10].
(...) Nenhum país no universo pode ser comparado ao da Índia[11]. Um céu feliz, um clima abundante, uma terra fértil cheia de produções de todos os gostos, e de todos os gêneros: eis aqui o seu quadro físico o mais iludente, que jamais a natureza ofereceu aos mortais.  O seu comércio dá a todas as nações novos gostos, pelas trocas, que se faz da mão de obra  européia, com  as primeiras matérias da Índia.  A Europa não tardou em gozar de grandes vantagens.  Com efeito, como houve mais riquezas, por conseqüência mais comodidades, mais facilidades, mais opulência. Com a fortuna dos particulares influi sempre sobre o Estado[12], os Reis adquiriram mais poder, por que tiveram mais meios.
(...) Vasco da Gama Não tinha exército regulado[13], nem entendia a língua indiana, duas armas, sem as quais nenhum Almirante pode nem combater, nem negociar; porém (...) achou um mouro na terra, que sabia o português, e índio.  Este intérprete lhe negocia uma audiência com o Zamorim. O general lhe propôs um tratado de comércio com o Rei de Portugal[14] seu Amo, o Zamorim aceitou. (...) Este tratado ia a concluir-se quando os maometanos, que influíam muito na corte deste Príncipe, lhe fizeram conhecer os inconvenientes a que se expunha, ligando-se com uma nação cuja ambição os obrigava a passar seis mil léguas de mar para se apoderarem dos tesouros do Industão[15] (...) e que nada era mais perigoso, que receber Estrangeiros, cuja religião, e costumes eram opostos ao dos Índios. O general português não podendo concluir coisa alguma com o Zamorim, voltou a Lisboa.
(...) Os primeiros obstáculos que se tinham opostos à conquista da Índia, em lugar de desgostar a Corte de Portugal, não serviram senão em irritar a sua ambição. (...) O Papa[16] não faltou de aproveitar esta ocasião para fazer valer os seus direitos sobre o Industão. Concedeu ao Rei de Portugal todas as Costas de mar, que descobrisse no Oriente. Esta segunda expedição que era formal, teve bom êxito.  Era uma armada naval[17] composta de treze navios de guerra; com este poder, que era o mais formidável, que tinha aparecido, conquistou as Índias (...).”

[1] O personagem referido é o Infante d. Henrique (1394-1460), que ficou conhecido como “O Navegador”. É considerado o grande instigador das viagens dos descobrimentos às costas africanas. Em 1417, voltando de uma expedição a Ceuta, estabeleceu-se em Sagres, junto ao Cabo de São Vicente, onde passaram a se reunir diversos fidalgos para a discussão de assuntos concernentes às expedições navais. Estas reuniões tornaram-se conhecidas como Escola de Sagres.
[2] Expressão referente à expansão marítima européia que aconteceu do século XV ao final do século XVIII. As descobertas foram influenciadas por d. Henrique (1394-1460) e modificaram intensamente a vida econômica, social e cultural da Europa, em especial dos portugueses e mais tarde dos espanhóis. Gradativamente, o oceano Atlântico tornou-se a principal rota do comércio internacional.
[3] Ciência que ensina a constituição, a posição e os movimentos dos corpos celestes. Os árabes foram os grandes astrônomos e legaram esse conhecimento à Península Ibérica. Na época moderna ocorreram mudanças fundamentais na astronomia. Foi de extrema importância para as descobertas, uma vez que toda a navegação era orientada pelos astros, na qual pode-se perceber que os principais instrumentos de navegação usavam como base orientadora os princípios científicos da astronomia daquele período.

[4] Parte da matemática que ensina a conhecer o espaço, as grandezas, razões, proporções e suas formas, figuras e corpos, que nele se podem conceber. 
[5] A bússola, assim como o astrolábio, foram importantes instrumentos utilizados pelos navegadores na época da expansão marítima. Ambos são oriundos da Idade Média.
A bússola foi utilizada na Europa a partir do século XII, tendo chegado ao Ocidente através dos árabes, embora sua invenção seja atribuída aos chineses. Funciona a partir de uma agulha imantada orientada pelo Norte em uma movimentação rotatória horizontal. Sobre sua utilização pelos lusitanos, o mais antigo documento encontrado em que se faz referência ao instrumento data do século XV.
O astrolábio (sucessor da balestilha) foi inventado pelos gregos, embora a maior parte tenha sido construída pelos árabes. Foi uma importante inovação nas chamadas “técnicas de marear”, pois permitia conhecer a localização de um navio através do estudo da posição dos astros. Existiam dois tipos deste instrumento: o redondo e o plano. Este último foi o preferido para a utilização dos navegantes portugueses na determinação das latitudes nas expedições marítimas do período das descobertas. O modelo particularmente utilizado era o Astrolábio Plano Simplificado, às vezes de grandes dimensões, com uma roda de até um metro de diâmetro.
[6] Alcançado pela primeira vez pelo navegador Bartolomeu Dias, foi batizado por este inicialmente de Cabo das Tormentas dada a dificuldade de ultrapassá-lo. Como o termo “Tormenta” desencorajava os navegadores, foi rebatizado por d. João II, conhecido como “o Príncipe Perfeito” (1481-1495), de Cabo da Boa Esperança por representar a esperança de uma rota alternativa e lucrativa com as Índias.
O navegador Bartolomeu Dias acompanhou também Pedro Álvares Cabral na descoberta do Brasil. Achou sua morte em uma viagem às Índias na altura do Cabo da Boa Esperança.
[7] Navegador português, Vasco da Gama (1469-1524) foi o comandante da expedição que realizou a primeira viagem marítima da Europa à Ásia, chegando em Calicute na Índia em 1498. Pelo feito, d. Manuel I nomeou-o Comandante-mor das Índias. Voltou ainda por duas vezes tendo sido governador e segundo Vice-rei.
[8] Conceito que significava tanto os movimentos astronômicos quanto transformações ocorridas com os diversos povos nas suas estruturas ao longo do tempo. O século XVIII é considerado a “Era das Revoluções”.
[9] O conceito Arte aplicava-se nessa época de duas maneiras: como “regras ou métodos de se fazer alguma coisa”, isto é, ligada a algum ofício; ou no sentido das “belas-artes”, ou seja, produção de cunho artístico. O comércio, por sua vez, era entendido como a “troca das produções” - da natureza ou de manufaturas - por outro produto ou por dinheiro. A indústria, neste momento, essencialmente manufatureira, tinha sentido similar ao da arte-ofício.
[10] Conceito que na época definia pessoas que compartilham língua, leis e governo comuns.
[11] Região da Ásia meridional ligada a península Indochinesa.
[12] Organização política centralizada na figura do monarca e apoiada em uma burocracia, detentora ainda do monopólio da violência e do fisco. Esse tipo de estrutura consolidou-se em meados do século XVI. Portugal foi o primeiro Estado Moderno a surgir em 1385, após a Revolução de Avis, na qual d. João I, o de “boa memória”, ascendeu ao poder.
[13] São tropas permanentes, disciplinadas e organizadas, que surgiram em detrimento da utilização de soldados mercenários. O marco inicial para essa passagem foi a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648). A Suécia e a Espanha foram os primeiros Estados a realizar uma ampla reforma na organização militar, ainda durante a guerra, sendo a Suécia a primeira nação a comparecer com um exército nacional, livre de mercenários. No século seguinte, verifica-se a preocupação em profissionalizar e racionalizar os exércitos, cuja maior expressão foi o surgimento da Academia Militar na Europa e na América.
[14] O personagem referido é d. Manuel I, “o Venturoso” (1469-1521),  rei do período dos descobrimentos da rota oceânica para a Índia e do Brasil, e que impulsionou a expansão ultramarina. Ficou conhecido pelas “ordenações manuelinas”,  um conjunto de leis que entre outras normas, decretava a expulsão de Portugal dos judeus que não se convertessem à fé cristã.
[15] Região da Índia perto dos limites com o atual Paquistão, correspondente à planície indo-gangética.
[16] Era o sumo pontífice, considerado vigário de Cristo na Terra e sucessor de São Pedro. Era o centro da unidade cristã. O Papa desta época dos descobrimentos foi Alexandre VI (1492-1498), eleito com grande aclamação pelo povo de Roma.
[17] No começo do século XV, armada significava um conjunto não muito numeroso de navios de guerra que navegavam junto. Quando este conjunto era significativamente numeroso, chamava-se então frota. Coube aos portugueses o principal papel no espetáculo dos grandes descobrimentos marítimos, cujas primeiras navegações foram feitas em navios como a barcha ou barca e o barinel. Em meados de 1440, eles aperfeiçoaram um novo tipo de navio, que viria a ser o mais característico da época: a caravela. Era uma espécie de navio mais alongado que seus antecessores, de borda alta e usando velas latinas triangulares, o que o tornava apto a navegar quase contra o vento. Foi, até fins do século XV, o “navio dos descobrimentos”.
Depois de explorada toda a costa africana do Atlântico, os portugueses adotaram um outro tipo de navio – a Nau – bem maior que a caravela e capaz de navegar muito longe das costas. Foi nesse tipo de navio que Vasco da Gama fez sua viagem às Índias. 

 
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