Ir direto para menu de acessibilidade.
Início do conteúdo da página
Oriente

Mandarins

Escrito por Super User | Publicado: Quarta, 20 de Setembro de 2017, 19h51 | Última atualização em Segunda, 25 de Junho de 2018, 13h15

Ofício do Senado da Câmara da cidade de Macau para o Ministério da Marinha e Ultramar, relatando a morte de um português pelos mandarins, as dificuldades financeiras sofridas naquele ano pela cidade e os casos de humilhações sofridas pelos portugueses na cidade. 

Apesar do texto iniciar esclarecendo o respeito e acatamento às “Reais Ordens”, este documento explicitamente critica a condução do Governo da Metrópole perante a colônia, pois os habitantes portugueses não mantêm a ordem e a autoridade necessárias para o controle colonial. Da morte do português pelos mandarins ao problema de embriaguez e furto do próprio exército luso, o documento clarifica os intrincados percalços do processo de dominação colonial.

Conjunto documental: Secretaria de Estado do Ministério do Reino
Notação: caixa 664, pct. 1
Datas-limite: 1783-1817
Título do fundo ou coleção: Negócios de Portugal
Código do fundo: 59
Argumento de pesquisa: Pequim
Data do documento: 28 de dezembro de 1793
Local: Macau
Folha(s): pacotilha n. 1, 46

"Temos a vista a sempre respeitável carta de Vossa Ex.ª de 27 de Janeiro deste ano, e nela muitas considerações de V. Ex.ª: sobre as circunstâncias da morte do Manilla Pedro Ronquilho, que foi justiçado nesta cidade pelos mandarins[1]   no ano de 1791, e sendo elas próprias do superior Juízo de V. Ex.ª ; excedendo à nossa compreensão, é preciso não sairmos dos limites do respeito, e acatamento, com que sempre recebemos, e desejamos executar as Reais Ordens. (...)
(...) e que sendo a Sua Majestade[2] (...) outras muitas lesões da Sua Real Jurisdição nesta cidade como a infração dos privilégios dela, as dificuldades do comércio, o aumento dos Direitos das Mercadorias[3] e até o do mesmo foro do chão[4] que habitamos, e outras muitas vexações que temos experimentado dos mandarins em diversas ocasiões e até reconsiderar na Sua Real Presença a necessidade, que havia de ter em Pequim quem as representasse ao Imperador, até agora se não dignou a mesma Senhora dar esta tão importante como conhecida providência (...).
Contando tudo isto na Real Presença talvez não constará sendo uma das providências lembradas por V. Ex.ª em benefício desta colônia[5] extinguir-se a antiga tropa, que a guarnecia, e virem de Goa cento e cinqüenta homens escolhidos. Foi ela tão mal executada que apenas se acharam vinte ou trinta que deixem de ser bêbados, ou ladrões tão miseráveis e desprezíveis, que não inculcam respeito aos chinas, cujas boticas[6] freqüentam para embriagar-se, alguns têm chegado a largar as armas em vazar e outros têm sido pilhados bêbados (...) com tudo isso despenda este Senado com eles Doze mil taes[7] em cada ano além do fardamento e despesa do hospital". 

[1] Designação dada pelos portugueses às autoridades ou chefes locais na China.  Ao contrário do que se poderia pensar, a palavra mandarim não provém do verbo português mandar, mas sim do termo malaio mantari, que quer dizer chefe.

[2] Trata-se de d. Maria I, a louca (1734-1816). Nascida em Lisboa e falecida no Rio de Janeiro, (residia em tal cidade desde a mudança da família real para o Brasil em 1808, por ocasião da invasão francesa em Portugal). Foi responsável pela destituição do marquês de Pombal do cargo de primeiro-ministro, e de uma série de reformas chamadas de “antiliberais”, conhecida como a época da “viradeira”.

[3] Refere-se ao Direito fiscal aduaneiro. Tratam-se das leis referentes à importação e exportação de mercadorias, e igualmente a uma série de atividades a elas relacionadas como fiscalização, carga, descarga, armazenagem, transporte etc.

[4] Espécie de pensão ou renda tributada daquele que  usufrui o domínio útil de uma propriedade.

[5] Possessão político-administrativa de uma nação sobre uma determinada região extraterritorial. As colônias da Idade Moderna podem ser definidas, em termos resumidos, ao caráter de importância conferido por sua metrópole: colônias de exploração e colônias de povoamento. As primeiras referem-se às regiões que, embora povoadas, tinham por objetivo principal a exploração dos recursos naturais considerados preciosos para os colonizadores. Este foi o caso das colônias portuguesas e espanholas. Já as colônias de povoamento, embora tenham sido exploradas, tinham como finalidade o estabelecimento populacional de cidadãos metropolitanos. Neste caso, encontramos como exemplo as 13 colônias norte-americanas, cujo impulso deveu-se a problemas de ordem social e religioso na Inglaterra para o qual a América surgira como solução. Famílias inteiras foram enviadas para lá, buscando estabelecer-se.

[6] Lugar onde se preparavam e vendiam medicamentos, bem como se aviavam receitas médicas. É a farmácia de manipulação de hoje.

[7] Unidade de peso, que tem valor monetário na China.

Fim do conteúdo da página