Ir direto para menu de acessibilidade.
Início do conteúdo da página
Oriente

Pirataria

Escrito por Super User | Publicado: Quarta, 20 de Setembro de 2017, 19h49 | Última atualização em Quinta, 21 de Junho de 2018, 15h17

Documento pertencente ao Fundo Negócios de Portugal referente a Carta do governador de Macau, Vasco Luís Carneiro, ao Senado, requerendo providências acerca do aprisionamento da chalupa de Antônio Félix Machado por piratas.

Através da Mesa de Vereação, o Senado decide enviar três embarcações, devidamente equipadas com mantimentos e armas para resgatar a dita chalupa e afugentar os piratas, evitando outras possíveis incursões. O complemento do documento apresentando tabelas nas quais se pode perceber os elementos humanos  e os recursos materiais de uma viagem marítima à época da expansão.

Conjunto documental: Secretaria do Estado do Ministério do Reino
Notação: Caixa 664, pct 1
Data-limite: 1784-1815
Título do fundo ou coleção: Negócios de Portugal
Código do fundo: 59
Argumento de Pesquisa: Macau
Data do documento: 07 de julho de 1793
Local: Macau
Folha (s): pacotilha 1,42 e 1,43

Leia este documento na íntegra:  Pirataria 1 | Pirataria 2 | Pirataria 3

“Horrível catástrofe sucedido a chalupa[1] desta praça, e da propriedade de Antonio Feliz Machado, recolhendo-se da Cochinchina[2], deu motivo ao Governador desta cidade Vasco Luiz Carneiro o escrever deste Senado a carta que remetemos a Vossa Ex.ª por cópia ... para entre outros assuntos se liberar material tão importante, no qual foram todos de unânime parecer, se armarem três embarcações em guerra Felix e Aventureira; Nossa Senhora do Resgate; Efigênia, não só para ver se podia restaurar a dita chalupa, e apanhar os piratas[3], mas ao menos afugentá-los destes Mares, que estavam tão inficionados, sendo a escolha das mesmas Embarcações, oficiais, e mais equipagem e munições de guerra[4], e da boca, e finalmente soldados e todas as  mais despesas que fosse necessário fazer-se, ao árbitro do dito Governador ....”

Lista da Tripulação da Corveta[5] Efigênia
Comandante[6] Antonio Correa de Siger 
Segundo Comandante Felipe Correa de Siger 
Primeiro Piloto[7] Hipolito de Souza 160,00
Segundo Piloto Miguel de Souza 80,00
Mestre[8] Miguel Antonio Samela  80,00
Contra Mestre Vicente da Cruz 40,00
Escrivão José Place 40,00
Condestável[9] Luiz Pereira 30,00
Guardião João Foz do Rozario 40,00
Carpinteiro china 30,00
Segundo Carpinteiro china 24,00
Dispenseiro Joaquim Xavier 30,00
Quarenta e oito marinheiros[10] a 8 p.tas por mês em 2 meses 768,00
Cozinheiro da Câmara china 20,00
Servidores da Câmara Francisco e Antonio José 22,00
Mais ao Comandante para  qualquer necessidade 100,00
Total 1464,00

Macau a bordo dada corveta a 17 de Julho de 1793. Antonio Correa de Siger.
O Escrivão[11] da Câmara Antonio Dias da Cunha

Conta das Despesas feitas com a compra de víveres para lotação e Mesa da Chalupa Nossa Senhora do Resgate. A saber-
Itens utilizados  valor das despesas por item
 Por
21:33 cates[12] de biscoito a 4: 655 por bl.ª o pico sic  99.291
40: picos balança de Arroz a 1:3 m  54,400
20: 40 cates em 22 porcos entre grandes e pequenos a 6: 5 m  132,600
5:75 cates em 222 galinhas a 9: 36 conds.  53,820
1:15 cates em 19 patos a 8 conds. a lata  9,200
1:50 cates em Sírio[13], orelha de rato e tafu[14] seco  19,750
4 picos de feijões a 2:1 m.   8,400
3 buiões grandes de vinagre  1,500
3 cates para condução do dito  1,500
80 cates de laranja doce a 19 condorins  15,200
50 cates de maçam[15] de nanquim a 15 conds.  7,500
1 pico de açúcar pedra  9,500
2 picos de açúcar pedra a 4:5 mazes  9,000
1000 ovos de galinha  4,500
1 pico de farinha  3,930
30 cates de velas de sebo a 1 m.  3,000
1 buião de miçó  1,250
12:05 cates de Abóboras a 3 mazes  3,615

Total 455,276

Segunda folha

Itens utilizados Por  valor das despesas por item
3 picos de farelo a 1 tal o pico 3,000
6:45 cates em figos, patecas[16], ananazes e sic  9,420
1 pico de lichias secas  5,750
103 jarras grandes}
405 jarras pequenas} a 8 por p.ta1  8,902
153 cates de presunto a 19:5 mazes   29,835
120 cates manteiga de porco a 14:5 m. 17,400
360 cates de peixe salgado a 68 mazes  24,480
60 cates de batatas a 4 conds.  240
450 limões frescos  600
2 picos de sal a 1:6 m. 3,200
2 picos de Arroz fino a 2:6 mazes  5,200
Temperos  5,680
Para as pessoas que trabalharam para condução de mantimentos, entrando fios, papéis, cestos, sic  7,275

Custos para carreto e embarcação  2,300
2 picos de vela a 1:1 maz  2,200
Total  Taes 640, 525

Somam Quinhentos quarenta taes[17], cinco mazes, dois condorins[18] e cinco caixas. Macau, 16 de julho de 1793 que recebi. Rafael Bottado de Almeida.

[1] Embarcação naval de cerca de 36 pés de comprimento com a popa construída igual à proa para ser possível manobrar mais facilmente em todos os sentidos. São embarcações esguias, comuns nas navegações de cabotagem e trazem um mastro com vela a 2/3 de verga.
[2] Cochinchina. Localizava-se na parte norte do atual Vietnã próximo ao rio Mekong. No final do século XVIII passou para o domínio dos franceses, unindo-se à região indochinesa. Em 1949 foi incorporada ao Vietnã.
[3] O pirata, a rigor, não tinha nacionalidade juridicamente reconhecida, era um marginal em todos os sentidos. Na região das Antilhas os mais famosos piratas foram os franceses Jean Florin, Laudinière, Montbars, os irmãos Lafitte e o mais famoso de todos, Jean Davis – “o Olonês”. Em um universo em sua maioria masculino, algumas mulheres disfarçadas de homens fizeram história, como por exemplo Mary Head e Anne Bonney. Nos mares da China existiu ainda a “Senhora Ching”. O último reduto da pirataria ocidental foi o Mediterrâneo, onde piratas gregos e berberes eram atuantes desde a Idade Média.
O Corsário, tem sua origem na Idade Média, mas se tornou especialmente importante na Idade Moderna. Ao contrário do pirata, do ponto de vista do direito internacional, o corsário é um combatente regular, a quem o governo dava uma carta de corso. Poderia ser mantido diretamente pelo governo ou por um particular. Não há grande diferença dos piratas quanto aos métodos, porém, o corso reservava de 1/3 a 1/5 do amealhado para o tesouro real.
O mais famoso corsário foi o inglês Francis Drake feito “sir” pela Rainha Elisabeth. Entre os mais famosos corsários temos os ingleses John Hawkins, Thomas Cavendish e James Lancaster, que eram também piratas e inclusive realizaram ataques a companhias brasileiras; Peter Hejn e Van Horn de origem holandesa e o francês Duguay-Trouin.
[4] A munição utilizada no período era basicamente a pólvora, conhecida como “a arma do Diabo”. Mistura de salitre (nitrato de potássio), enxofre e carvão, o surgimento da pólvora deu novas dimensões à guerra. Embora tenha sido inventada pelos chineses chegou ao Ocidente pelos árabes. Os canhões foram as primeiras armas de fogo, só mais tarde evoluindo-se para as portáteis. Na marinha, o canhão forçou lentamente a substituição dos navios a remo por àqueles movidos a vela, por serem maiores e comportarem melhor o peso e o volume do armamento.
[5] A corveta era um tipo de embarcação de guerra, que se seguiu a fragata, usada para exploração, escolta e guerra de velocidade. A corveta foi um dos primeiros navios de guerra a adotar a hélice, mesmo conservando as velas e os cascos de madeira.
[6] É o oficial responsável pelo comando do navio e de todas as operações realizadas durante a expedição. Geralmente, trata-se de um experiente navegador.
[7] Oficial náutico que dirige o navio. Era a figura que detinha os conhecimentos técnicos que envolvem a prática da navegação.
[8] Experiente marinheiro responsável pela manobra do velame, pela supervisão geral do convés e da dispensa das provisões, prestando contas nos armazéns reis.
[9] Responsável pela artilharia.
[10] É o homem que serve na mareação do navio, sendo encarregado das “fainas” (serviço pesado: cuidados com velas, cabos, limpeza dos convés, dos compartimentos internos, entre tantos outros serviços).
[11] Oficial público e privado encarregado de escrever autos, atas, termos de procuração e outros documentos legais junto a diversas autoridades, tribunais e corpos administrativos. No século XVIII, o escrivão era uma figura ativa e presente em toda e qualquer reunião ou ato oficial, pois a burocracia assim exigia o registro de todas as atividades públicas.
[12] Peso antigo, na Ásia, de valor incerto, que se julga estaria compreendido entre 500 gramas e 3 quilos.
[13] Saco ou fardo de palha para transporte de mandioca.
[14] Bebida chinesa, preparada com certa espécie de feijões.
[15] (Mação) Grande Maço.
[16] O mesmo que melancia e melancieira.
[17] Unidade de peso, que tem valor monetário na China.
[18] Peso e moeda da Ásia e da Malásia.

Fim do conteúdo da página