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Oriente

Religião

Escrito por Super User | Publicado: Quarta, 20 de Setembro de 2017, 19h46 | Última atualização em Quinta, 21 de Junho de 2018, 15h18

Ofício do arcebispo primaz do Oriente à Junta de governadores de Lisboa, referente ao stabelecimento de três seminários católicos nos domínios portugueses na Ásia, mais especificamente em Pequim, Goa e Macau.

Este documento ressalta a importância da religião, enquanto instrumento necessário à conservação das possessões ultramarinas, sobretudo no que toca à obediência e ao respeito a essa nova ordem. Através da fé, o governo português buscou exercer sua autoridade, fundando as bases do domínio colonial. Em outras palavras, a Cruz era boa para muitas funções no Reino de Portugal: alimentava de paz a alma dos cristãos e de produtos e metais preciosos os cofres reais.

Conjunto documental: Secretaria de Estado do Ministério do Reino

Notação: Caixa 731, pacote 04
Datas-limite: 1728-1904
Título do fundo ou coleção: Negócios de Portugal
Código do fundo: 59
Argumento de pesquisa: Bombaim
Data do documento: 30 de Setembro de 1821
Local: s.l.
Folha(s): Pacotilha 5

“É voz pública, que a Exma. Junta do Governo Provisional tem determinado abolir os Seminários[1] desta Diocese[2]: eu como prelado[3] sou obrigado a representar o que entendo neste assunto ....
            1°. Sem uma religião é impossível conservar os povos na obediência, e respeito às autoridades estabelecidas: a Lei, que não obriga à consciência, é sempre violada, quando a sua violação pode perpetrar-se em segredo, ou com esperança de impunidade.
            2°. Não há religião sem ministros, seja ela verdadeira, ou falsa, sejam eles virtuosos, ou fanáticos.
            3°. Pela decisão dos Padres de Trento[4] ..., só nos Seminários é fácil formar ministros da Religião com probidade, ciência e costumes. ...
            6°. A Ásia[5], deixando quase toda de ser possuída pelos portugueses, nem por isso deixou Goa[6] de ser o viveiro dos missionários[7] de toda ela .... São estes os princípios, ou reflexões, que obrigaram depois da extinção da sempre famosa Companhia de Jesus[8] ao Snr. Rei D. José[9] a encarregar dos seminários aos Padres Congregados de Goa, e a Rainha sua Augusta filha[10] conhecendo estes mesmos princípios mandou com grandes despesas Padres da Congregação[11] da Missão a estabelecer três Seminários, em Goa, ... Macau[12], e outro em Pequim[13]. ... Parece-me, que depois desta simples exposição V. Ex.a conhecerá não só o dano, que a abolição dos Seminários vai causar a esta Diocese, mas a todas as outras da Ásia; não só o dano espiritual, mas mesmo o dano político, que dele resulta .... Panelim[14] a 30 de Setembro de 1821. Francisco Manoel Arcebispo[15] Primaz do Oriente."

[1] De maneira ampla significa um círculo de estudos. No entanto, a partir do Concílio de Trento (1545-1563) difundiu-se o significado do termo como as casas de formação eclesiástica para o sacerdócio.
[2] Território sob a jurisdição de um bispo, arcebispo ou patriarca.
[3] Título honorífico dado a quem exerce um alto cargo eclesiástico.
[4] A expressão refere-se ao concílio realizado na cidade italiana de Trento entre 1545 e 1563, em resposta à Reforma Protestante,  procedendo-se a uma grande reformulação do catolicismo e restaurando a disciplina na Igreja Católica. Este episódio deu origem à Contra-Reforma ou Reforma católica e ficou conhecido como Concílio de Trento.
Reforma Protestante – movimento surgido na Europa no século XVI, com características próprias em cada região. Originou-se de uma ruptura com parte da doutrina da Igreja Católica, fundando uma nova religião: o Protestantismo. A Contra-reforma foi uma reação da Igreja Católica às críticas feitas pelos protestantes, visando a recuperação do poder, prestígio e controle social. 
[5] O maior e mais populoso dos continentes, estende-se do interior do círculo ártico até quase o Equador.
[6] Situada na costa de Malabar, na Índia, possui uma parte territorial continental e outra formada pelas Ilhas de Goa, Angediva, São Jorge e Morcegos. Possessão portuguesa na costa ocidental da Índia, cuja capital era Nova Goa ou Panjim. Criada no século XVI foi durante muito tempo sede da Índia portuguesa.
[7] Difusor ou consolidador da fé cristã tinha por missão evangelizar. Pode ser um sacerdote ou leigo, mas é sempre autorizado pelas autoridades eclesiásticas competentes.
[8] Ordem religiosa fundada por Santo Inácio de Loyola, em 1540, para a conversão dos heréticos e à serviço da Igreja. Os membros da Companhia de Jesus eram conhecidos por “soldados de Cristo”, dada as suas características missionárias. Além da catequese, coube aos jesuítas a transmissão da cultura nas possessões portuguesas através do ensino. O grande poder acumulado pela Companhia haveria de ser contestado durante a administração pombalina que ocasionou um conflito de interesses entre a Companhia de Jesus e o governo Português. Cabe ressaltar, que na decisão de expulsão, em 1759 de Portugal e de seus domínios, tomada pelo Marquês de Pombal, não buscava reduzir o papel da Igreja, mas derivava da intenção de Pombal de secularizar a educação, dentro dos moldes ilustrados.
 Ilustração – movimento cultural e intelectual que se inicia em meados do século XVII na Europa, tendo como característica central o estabelecimento de uma Razão pragmática e de uma cultura científica. Em Portugal, suas idéias se propagaram no reinado de d. José I com a atuação do marquês de Pombal. 
[9] d. José I, o “reformador” (1714-1777). Sucessor de d. João V, foi o único Rei de Portugal com este nome. Ficou conhecido, entre outras coisas, por ter reconstruído a parte baixa de Lisboa, atingida por um terremoto em 1755, e pela atuação do seu primeiro-ministro marquês de Pombal, que liderou uma série de reformas em Portugal.
Marquês de Pombal (1699-1782) – Sebastião José de Carvalho e Mello, primeiro conde de Oeiras e depois marquês de Pombal, foi o Ministro de Negócios Estrangeiros de D. José I. Destacou-se no cenário Luso-brasileiro por uma série de medidas adotadas, dentre elas: expulsão dos Jesuítas de todo reino português (1759); a transferência da capital brasileira de Salvador para o Rio de Janeiro (1763) e a reforma do ensino em que se destaca a da Universidade de Coimbra (1772).   
[10] Trata-se de d. Maria I, “a louca” (1734-1816). Nascida em Lisboa e falecida no Rio de Janeiro, (residia em tal cidade desde a mudança da família real para o Brasil em 1808, por ocasião da invasão francesa em Portugal). Foi responsável pela destituição do marquês de Pombal do cargo de primeiro-ministro, e de uma série de reformas chamadas de “antiliberais”, conhecida como a época da “viradeira”.
[11] Associação religiosa cujos membros não realizam votos solenes, mas apenas votos simples que podem ser temporários ou perpétuos, e refletem a essência de suas obrigações. São chamadas de Ordens, as congregações religiosas de votos solenes.
[12] Colonizada pelos portugueses, situa-se na parte Sul da China, é constituída pela península, onde se localiza a capital, e pelas Ilhas Verdes, da Taipa e Coloane, ao Sul da Península.
[13] Localizada no sítio de Ienquim foi algumas vezes a capital chinesa tendo sido denominada, ao longo de sua história, de Cambalique (século XII) e Peiping.
[14] Sede do vice-reinado entre 1675 a 1759 localiza-se entre a Velha Goa e capital Panjim, em que se tornou em 1759, substituindo Panelim.
[15] Primeiro bispo de uma província eclesiástica, a qual compreende várias dioceses.

 

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