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História Natural

Plantas Nativas

Escrito por Super User | Publicado: Quinta, 01 de Fevereiro de 2018, 11h17 | Última atualização em Sexta, 03 de Agosto de 2018, 20h16

Carta do governador do Pará, d. Francisco de Souza Coutinho, ao ministro e secretário de Estado dos Negócios da Marinha e Domínios Ultramarinos, d. Rodrigo de Souza Coutinho, em resposta à Carta Régia de 04 de novembro de 1796.  Por esta carta de lei, o Príncipe Regente d. João determinava  “o estabelecimento de viveiros e a educação das plantas” em terreno onde antes funcionava o convento de São José. Além das especiarias mandadas cultivar na Carta Régia, o governador da capitania sugeriu que também fossem cultivadas plantas indígenas. Segue em anexo, um resumo do mapa das plantas e quantidades que estavam sendo cultivadas na região. 

Conjunto documental: Correspondência original dos governadores do Pará com a corte, cartas e anexos
Notação: códice 99, vol. 19
Datas-limite: 1798
Título do fundo ou coleção: Negócios de Portugal
Código do fundo:59
Argumento de pesquisa: História natural
Data do documento: 30 de março de 1798
Local: Pará
Folha(s): 98 a 100

Leia esse documento na íntegra

“Ilustríssimo e excelentíssimo senhor
Junto ao edifício, que algum dia foi o convento com a invocação de S. José1, mandei limpar, e preparar uma extensão de terreno de 50 braças2 ... para o estabelecimento de viveiros, e da educação de plantas, que sua majestade3 foi servida determinar pela carta régia4 de 4 de novembro de 1796. A direção deste trabalho incumbi ao francês Grenoullier ... por ter sido em Caiena5 encarregado d’outros semelhantes .... Poucos meses depois faleceu ele de um ataque de hidropezia6, deixando porém já disposto o terreno, e algumas plantas das que anteriormente tinham vindo. ... quase todo trabalho correu pelo capitão do regimento da cidade Marcelino José Cordeiro,  por quem vai assinada a inclusa relação das plantas já dispostas no sobredito terreno. Por esta relação verá V. Exª que eu me alarguei do que prescreviam as ordens de sua majestade ..., pois se sua majestade quer fazer despesas com a educação de plantas estranhas em viveiros para promover a cultura delas nos seus reais Domínios, por força de maior razão parece conforme às suas Reais Intenções, que a um mesmo tempo se promovam a das indígenas, que não se cultivam ainda, e cujos produtos se vão avulsamente procurar pelos matos. .... Deus guarde a V. Exª. Pará7 30 de março de 1798. Ilmo. e Exmo. Snr. d. Rodrigo de Souza Coutinho8. De Francisco de Souza Coutinho 9.”

Especiarias 10 Transplantadas de Caiena

Cravo da Índia11 (Giroffe), Canela da Índia12, Pimentas do País13

Indígenas a domesticar
Cravo da terra chamado do Maranhão, Paziri grosso, Paziri miúdo ou casca preciosa14

Outras ÁrvoresTransplantadas de Caiena
Árvores de pão15, Guina de Suriname, Canas de açúcar16

De Frutas
Abricoti de S. Domingos, Jacas, Mangas, Sapotite, Abacates, Cajús, Maracujás, Beringelas

Indígenas a domesticar e promover à cultura
Erva santa, Anil17, Cacau18, Café19, Gengibre20, Salsa parrilha21, Baunilha22

De Frutas
Tamarindos, Beribáz

De uso em construções
Angelim, Maçaranduba,  Merajuba, Sucupira

1 O convento de São José foi construído pelos religiosos da Ordem da Conceição da Beira do Minho em 1706. No final do século XVIII, seu prédio foi adaptado para o estabelecimento de um viveiro de plantas que buscava os conhecimentos necessários para reprodução de espécies vegetais lucrativas para a Coroa. Atualmente, localiza-se no centro histórico de Belém e teve o prédio inteiramente recuperado para acomodar um espaço cultural e econômico: o São José Liberto, Centro de Referência Joalheiro e Artesanato.  
2 Antiga unidade de medida equivalente a dez palmos, ou seja, 2,2cm. Cada palmo vale 22cm.
3 Trata-se de d. João VI (1767-1826), rei de Portugal, Brasil e Algarves.  Filho de d. Maria I e d. Pedro III, assumiu a regência do Reino em 1792, no impedimento da mãe que foi considerada louca.  Foi sob o governo do então Príncipe Regente d. João, que Portugal enfrentou sérios problemas com a França de Napoleão Bonaparte, sendo invadido pelos exércitos franceses em 1807.  Como decorrência da invasão francesa em Portugal, a família real e corte lisboeta partiram para o Brasil em novembro daquele ano, aportando em salvado em janeiro de 1808. Dentre as medidas tomadas por d. João em relação ao Brasil estão:  a abertura dos portos às nações amigas; liberação para criação de manufaturas; criação do Banco do Brasil; fundação da biblioteca real; criação de escolas e academias, e uma série de outros estabelecimentos dedicados ao ensino e à pesquisa, representando um  importante fomento para o cenário cultural e social brasileiro. Em 1821, o então d. João VI, retornou com a corte para Portugal, deixando seu filho d. Pedro como regente. Deu-se, ainda, sob o seu governo, em 1825, o reconhecimento da independência do Brasil.
4 Carta expedida pelo soberano que possui valor legal de uma ordem legislativa.
5 Capital da Guiana Francesa, situada entre a antiga Guiana Holandesa e o Brasil. Em 1809, Caiena foi ocupada pelos portugueses e a colônia francesa de além-mar  anexada aos seus domínios. Essa atitude do Príncipe Regente d. João foi uma resposta a invasão francesa sofrida por Portugal dois anos antes. Em 1814, com a derrota de Napoleão, a posse da colônia voltou a ser reivindicada pelo governo francês, agora sob o domínio de Luís XVIII. Como os termos da proposta francesa não foram aceitos por d. João, a questão passou a ser discutida pelo Congresso de Viena, no ano seguinte. Nessas conversações a França concordou em recuar os limites de sua Colônia até a divisa proposta pelo Governo português. Entretanto, somente em 1817, os portugueses deixaram Caiena com a assinatura de um convênio entre a França e o novo Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Embora apenas por alguns anos, a conquista de Caiena, permitiu aos portugueses o aproveitamento, na capitania do Grão-Pará de certas plantas raras importadas pelos franceses para o rico celeiro organizado, sob a denominação de La Gabrielle, que veio beneficiar a agricultura brasileira em particular a cana caiena.
6 Acumulação de soro sangüíneo em alguma cavidade do corpo ou no tecido celular. É algo semelhante a um edema.
7 Província do Brasil situada entre as atuais regiões do Amazonas e de Roraima. Sua fundação reporta-se a instalação do Forte do Presépio (1616), fruto da preocupação da coroa portuguesa em evitar a penetração  de corsários, sobretudo franceses, em seus domínios pelo rio Amazonas. Esse forte deu origem a cidade de Belém, capital do atual Estado do Pará. Foi através dessa província que, na década de 1720, foi introduzido o café no Brasil.
8 D. Rodrigo Domingos de Souza Coutinho Teixeira de Andrade Barbosa, 1º conde de Linhares (1755-1812), era afilhado do marquês de Pombal. Estadista português que exerceu diversos cargos políticos até a sua vinda para o Brasil em 1808 (junto com a corte real), quando foi nomeado ministro da Guerra e dos Negócios Estrangeiros. Considerado “um homem das Luzes”, dentre os seus projetos figurou a idéia de construção de um império luso-brasileiro.  Sob o seu governo, o Brasil adquiriu novos contornos com a anexação da Guiana Francesa (1809) e da Banda Oriental do Uruguai (1811).  Preocupado com o desenvolvimento econômico e cultural, bem como com a defesa do território foi responsável pelo Tratado de Aliança e Comércio com a Inglaterra (1810) e a criação da Real Academia Militar (1810). Sobre sua extensa titulação, destacou-se como: 1º senhor de Paialvo (1789); inspetor geral do Gabinete de História Natural e do Jardim Botânico da Ajuda; inspetor da biblioteca pública de Lisboa; inspetor da junta econômica, administrativa e literária da Impressão régia, da junta dos provimentos de boca do exército; conselheiro de Estado; Grã-Cruz das Ordens de Avis e da Torre-e-espada; ministro da corte de Turim; presidente Real Erário e secretário de Estado da Marinha.
9 Governador da província do Grão- Pará, entre 1790 e 1803, era irmão de d. Rodrigo de Souza Coutinho.
10 A palavra ESPECIARIAS é proveniente do termo latim ‘especia’ = substância. Tem o sentido de substâncias raras e caras, usadas em pequenas quantidades, para fins de perfumaria (cosmética), remédio (drogas que curam doenças), e condimento (temperos usados principalmente na técnica de conservação dos alimentos, para disfarçar e/ou suavizar os sabores). Eram, em sua maioria importadas do Oriente e foram um dos fatores importantes no surto e na evolução dos Descobrimentos. A noz-moscada; o gengibre; a canela; o cravo-da-índia; a pimenta (líder absoluta da preferência das importações); e, por algum tempo, o açúcar são alguns exemplos de especiarias apreciadas pelos europeus na Idade Moderna. O açúcar deixa de ser considerado uma especiaria com o início de seu consumo em massa, a partir da monocultura açucareira fomentada pelos portugueses.  Data desta época a expressão “caro como pimenta”.
11 Produto oriental utilizado amplamente pelos chineses e indicado como condimento, remédio, adorno culinário, perfumes especiais e incensos aromáticos. No século XVI, os portugueses dominaram o comércio do cravo-da-índia, aumentando seu valor no mercado internacional. Apenas no século XIX, a França venceu definitivamente este monopólio, pois a planta já era cultivada em grande escala em muitas regiões tropicais. No Brasil, o cravo-da-índia é cultivado em regiões quentes.
12 No período colonial, o plantio foi por muito tempo proibido no Brasil, para não concorrer com o Oriente. Utilizada em paus ou moída é proveniente da casca de uma planta natural do Ceilão. De gosto adocicado, a canela era empregada na culinária, fazendo parte, ainda hoje, da cozinha lusa  no preparo de doces e mingaus. Possui também propriedades medicinais. Algumas espécies brasileiras fornecem madeira de lei.
13 Produto “raro e caro” no mercado, a pimenta era líder do comércio oriental das especiarias, devido às condições alimentares da época. São várias as espécies de pimentas existentes, tais como a malagueta, a pimenta-de-cheiro, dedo-de-moça, cambuci e a cumari. A pimenta de caiena é de uma espécie muito picante, derivada das malaguetas secas de um pimento vermelho. Usadas com moderação, as pimentas possuem funções medicinais tais como ativar a digestão e o metabolismo, e servem sobretudo para realçar e dar sabor aos alimentos. De um modo geral, as pimentas têm boas doses de vitaminas A, B e C, cálcio, fósforo e ferro.
14 A casca preciosa (Aniba canelilla.) é proveniente de uma árvore que chega a alcançar 25m de altura. Sua casca é aromática com cheiro de canela e rosa, possuindo sabor adocicado e cor acinzentada. É uma árvore comum na Amazônia e tinha também uma aplicação medicinal, sendo utilizada nos tratamentos de diarréia, diminuição de memória, catarro crônico, hidropisia, gota, sífilis e “debilidade do sistema nervoso por abusos venéreos”.
15 Trata-se da castanheira, árvore de grande porte, produtora de frutas comestíveis (castanhas) e preciosas madeiras. Era utilizado na alimentação dos homens e dos animais, atuando como o “pão” dos mais desfavorecidos, gerando a expectativa, desempenhasse um  papel similar  ao da batata.
16 Considerado uma espécie de sal vegetal, retirado de fontes variadas tais como da calda das canas doces e da beterraba. A produção açucareira foi para o governo português uma das maiores fontes de lucro comercial durante os séculos XVII e XVIII. O desenvolvimento das técnicas de plantio nas Antilhas, e posteriormente no Brasil, além de vigorar a economia lusa, também aumentou o consumo do produto, que deixou de ser uma “substância cara e rara”, ou seja, especiaria.
17 Arbusto de cujas folhas se obtinha uma tintura altamente cobiçada pela indústria têxtil da época. 
18 Theobroma cacao - espécie nativa da floresta tropical úmida americana, encontrado inicialmente nas nascentes dos rios Amazonas e Orinoco. Em 1746, as sementes de cacau foram levadas para Bahia e doadas a Antonio Dias Ribeiro. Ali, ele iniciou um cultivo agrícola, que se tornou muito importante para a economia da região, devido ao gosto pelos produtos culinários de suas sementes. Entre o mais famoso figura o chocolate, proveniente da prensagem, moedura e mistura a outros ingredientes, como o leite e o açúcar.
19 Planta da família das rubiáceas, nativa das montanhas etíopes, onde era consumido em pasta. Na Árabia do Sul,  foi introduzido o costume de se torrar os grãos do café e acrescentar água fervente ao pó,  produzindo assim uma bebida quente. Sua importância na economia portuguesa encontra-se pelo gosto ocidental de consumo desta bebida. No Brasil, esta cultura teria sido introduzida por Francisco de Melo Palheta, após sua expedição à Guiana na década de 1720. Desenvolvido inicialmente com importância secundária, tem seu auge no século XIX, movimentando até setenta por cento do volume de exportações do Império Brasileiro.
20 O gengibre era um condimento bastante valorizado, dado suas propriedades picantes e apimentadas. Foi amplamente utilizado pelos indianos e orientais e, posteriormente, na culinária inglesa. Possui, além de suas qualidades culinárias, propriedades medicinais, sendo utilizado no tratamento de resfriado, dores de garganta, e no aquecimento corporal em casos de hipotermia.
21 Planta originária do Brasil, também pode ser encontrada em demais regiões da América do Sul. Condimento e remédio, as raízes desta planta são referidas como anti-reumáticas, sudoríferas, em afecções da pele e no tratamento da gota. Exerce ainda ação estimulante sobre a digestão e o metabolismo em geral. Além disso, possui propriedades diuréticas, sendo um excelente depurativo do sangue.
22 Condimento derivado das vagens de uma orquídea de origem mexicana. São os cristais brancos desta planta, que se agarram à vagem, que lhe dão o sabor e aroma. Produto raro e caro, era bastante apreciado na época, em função do sabor doce e agradável que a baunilha dava aos alimentos.

Sugestões de uso em sala de aula:
Utilização(ões) possível(is):
- No eixo temático do ensino fundamental do 3º Ciclo “História das relações sociais da cultura e do trabalho”
- Ao trabalhar o tema transversal “meio ambiente”

Ao tratar dos seguintes conteúdos:
- A Sociedade colonial: culturas naturais
- Economia colonial
- Brasil colonial: riquezas naturais e seu comércio 

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