Ir direto para menu de acessibilidade.
Início do conteúdo da página
Conjuração em Minas Gerais

Tal dia é o batizado

Escrito por Super User | Publicado: Terça, 06 de Fevereiro de 2018, 13h54 | Última atualização em Quinta, 14 de Junho de 2018, 18h42

 

Carta de Domingos Vidal Barbosa em que confessa que estando ele na casa de Francisco Antônio Lopes, participou de conversas de cunho subversivo. Temas como “liberdade econômica” foram discutidos pelos presentes: desembargador Tomas Antônio Gonzaga, o cônego Luiz Oliveira, dentre outros. Segundo Gonzaga a independência do Brasil era também de interesse das nações estrangeiras, que teriam por conveniência comercializar diretamente com o mesmo. Concluíram os participantes que o momento oportuno para o levante, era quando o povo se encontrasse no auge de seu descontentamento, daí inconfidentes influentes na política incentivarem sigilosamente a instauração da derrama. Gonzaga argumenta que o Brasil dispunha dos recursos necessários para se manter autônomo, estabelecendo uma comparação com os norte-americanos que “não tendo outras minas que um pouco de peixe seco, algum trigo, e poucas fábricas tinham sustentado uma guerra tão grande”. Decidiram ainda favorecer no tocante ao comércio, às nações aliadas na guerra contra Portugal, e orquestraram o plano de execução do visconde de Barbacena, seguida pela instauração da República.

Conjunto documental: Inconfidência em Minas Gerais – Levante de Tiradentes
Fundo ou coleção: Diversos Códices SDH
Código do fundo: NP
Notação: códice 5, vol. 3
Datas-limite: 1789-1790
Argumento de pesquisa: Inconfidência Mineira
Data do documento: 9 de julho de1789
Local: Vila Rica – Minas Gerais
Folha(s): 24-27  

Além do que comuniquei aos ministros, que ontem me inquiriram a respeito do sucesso, que relatei acontecido em Montpellier, e para cujo objeto me foi tirado que V.Exa. ordenou a minha vinda a esta capitania me considero por esta circunstância na obrigação a que prontamente satisfaço de relatar a V.Exa. o que mais sei, e agora entendo ser indispensável delatar, servindo-me para isto da faculdade que V.Exa. me deu para esta escrita na presença do ministro, que nomeou e vem a V.Exa.Que havendo três para quatro meses, ido eu a Casa do Morro, a casa de meu primo o coronel Francisco Antonio de Oliveira Lopes, saí com o mesmo de tarde a ver um serviço mineral, e chegando ao dito que é perto de casa entramos a conversar, e o dito meu primo, a exagerar as comodidades deste país, e quanto ele seria delicioso se fosse livre e nestas práticas se consumiu a tarde. No dia seguinte tornou-me a fazer alguns discursos, soltar sobre as vantagens das ..., defendido pela natureza, conseqüentemente que digo, me disse, que tinha a contar-me certa coisa, e principiou outro discurso nesta substância. Que José Alvares Maciel, 1 filho do capitão mor desta vila, tinha feito conhecer a ordem desse país que aqui havia com que se fizesse ..., que havia ferro, e com isso tudo quanto era necessário para o Brasil se fazer independente, e que o dito José Alves, tinha dado palavra de aprontar quanto vinha de fora, a vista do que nada faltasse. Que o dr. Cláudio, 2 o cônego Luis Vieira 3 e o desembargador Gonzaga,4 não tinham feito as leis para se governarem, nas quais se ordenara que todo homem plebeu pudesse vestir ... que os diamantes fossem brancos, que os dízimos fossem para os vigários com condição de sustentarem uns tantos mestres, hospitais e outras coisas pias, que aquele que mais se distinguisse na primeira ação seria o mais premiado, e que a Nação que primeiro os socorresse durante a guerra essa teria mais vantagens em seus portos. Que o coronel Alvarenga 5 aprontava duzentos homens e que ele coronel dava cinqüenta, que o contratador 6 Domingos de Abreu dava a pólvora, e que o sinal era = tal dia é o batizado = que viriam todos de sobretudo para melhor ocultarem as armas. Disse mais que o cônego Luis Vieira tinha feito um plano para por ele verem a segurança deste país, e também para se regerem pelo mesmo dizendo o cônego Vieira que a natureza tinha feito este continente responsável por si mesmo e que a entrada do Rio de Janeiro faltava ser guarnecida por diversas emboscadas de sorte que qualquer tropa que subisse do ... se desbaratasse e que os que escapassem da primeira não escapariam da segunda, que era preciso buscar ocasião em que todo o povo estivesse descontente e que agora fazia muito boa porque se lançava a derrama: 7 que o Exmo. Sr. Martinho de Mello tinha escrito ao Intendente 8 Procurador da Fazenda, dizendo-lhe que devia ser riscado do serviço por não ter requerido o lançamento da derrama e que o desembargador Gonzaga tinha feito um requerimento muito forte para o douto Intendente entrar com ele na junta excitando a derrama, que não tinham que recear Nação alguma pois que todos desejavam o Brasil independente para virem negociar nele. Que os americanos ingleses 9 em umas praias cavadas não tendo outras minas que um pouco de peixe seco, algum trigo e poucas fábricas, tinham sustentado uma guerra tão grande, vendo-se obrigados a retirar-se para os montes. Que tinham acertado que o alferes 10 Joaquim José11 fosse a cachoeira e matasse o Exmo. General, e trazendo-lhe a cabeça amostrasse ao povo dizendo esse era quem nos governava, de hoje em diante vira a República 12 e que logo um subisse a um alto a fazer uma oração ao povo aguçando-lhe a futura felicidade, que matariam também o ajudante de ordens Antonio Xavier, o L. M. Pedro Afonso, duvidando se também matariam ou não o coronel Carlos José, e dizendo um que não era necessário que morresse, ... o dito Maciel dizendo que o devia ser porque os soldados o respeitavam mais do que ao Tenente Coronel. Que era necessário esperar ocasião em que fosse ... para baixo para o tomarem e haver dinheiro para pagamento dos soldados, que para as emboscadas na estrada do Rio eram milhares de homens pardos acostumados a andar no mato: que havia cinco ou sete negociantes do Rio de Janeiro que queriam que a revolução principiasse por lá e que lhe tinham mandado responder que essa gloria a queriam eles para cá: que tanto que se fizesse a sublevação nestas Minas se havia de escrever uma carta a praça do Rio dizendo que se queriam ser pagos de tudo que se lhes devia, haviam de ali fazer o mesmo que se tinha feito cá, e que então lhes mandariam socorro, e que no caso de vir grande poder contra o Rio mandariam ... para se retirarem, aqueles não fizessem ... de balas ardentes como haviam feito os ingleses em ... passados dois dias depois desta prática tendo eu ido a um batizado dos Prados foi encontrar-se comigo ao caminho, um estudante meu conhecido chamado José de Resende Costa, filho de um capitão do mesmo nome e quase chegando aquele Arraial dos Prados me disse, que talvez já não fosse a Coimbra 13 por certa circunstância e perguntando-lhe eu, me disse que era porque o Brasil se fazia brevemente uma República: pedi-me que me contasse como era isso porque já tinha ouvido falar em semelhante coisa, porém o sujeito a quem não dava crédito, respondeu-me que dissesse eu o que sabia que ele me daria o resto: contei-lhe então alguns dos passos referidos e ele me relatou outros do que se tinham a concluir que o dito Resende sabia pouco mais ou menos o mesmo que eu tinha ouvido, acrescentando que o Vigário de São José Carlos Correa de Toledo sabendo que seu pai estava na deliberação de mandar para os estudos de Coimbra, lhe tinha contado tudo o que referido fica além disto. Também o mesmo estudante me comunicou que em certo banquete ou batizado, tinha o irmão daquele mencionado Vigário o sr. Mor Luiz Vaz de Toledo Piza feito numa saúde do coronel Joaquim Silvério dos Reis 14, dizendo que tinha saúde de quem brevemente iria ficar livre da Fazenda Real 15, e que o mesmo sr. Mor se havia de armas para ir tomar São Paulo. Tudo que expressado venho ouvi unicamente ao dito meu primo, e estudante Resende que não merece a menor reflexão, assim pela incapacidade dos sujeitos, como pela impossibilidade da empresa ou de empreendê-la, e foi esta a causa porque me não dirigi logo a V. Exa. e relatar-lhe tudo como agora faço, muito mais por ignorar que houvesse lei, que assim me obrigasse porque a minha profissão é diversa e tudo o referido o juro aos Santos Evangelhos em firmeza do que me assino.Domingos Vidal de Barbosa.

1 JOSÉ ALVARES MACIEL (1760-1802). José Álvares Maciel era filho de um rico comerciante, fazendeiro e capitão-mor de Vila Rica, de quem herdara o nome. Como outros filhos da elite colonial, foi mandado à Universidade de Coimbra pra completar seus estudos, estabelecendo-se na Inglaterra posteriormente para estudar técnicas de manufatura. Na Inglaterra, passou a comprar relatos da Revolução americana, também discutindo com amigos ingleses a possibilidade da independência do Brasil. Na época em que retornou ao Brasil, começou a se formar a rede que iria unir um grupo de homens insatisfeitos com a relação metrópole-colônia (em especial, no tocante à situação das Minas) em torno da idéia de rebelião. Por ser uma figura próxima do governador visconde de Barbacena — era tutor dos seus filhos — acabou se tornando um informante privilegiado dos movimentos do visconde e das suas intenções. Seu papel na eclosão do movimento rebelde seria, teoricamente, o fornecimento de armas aos grupos revoltosos. Alvares Maciel foi condenado a morte mas teve sua pena comutada para degredo perpétuo em Angola, conseguindo estabelecer-se com sucesso na região, inclusive a serviço da Coroa. Em 1799, tornou-se encarregado das pesquisas mineiras no interior angolano, dando início à produção de ferro no ano seguinte. 
2 CLAUDIO MANUEL DA COSTA. Nasceu nas cercanias da atual Mariana, em 1729. Integrante da elite letrada da colônia formou-se em Coimbra e estabeleceu sua banca de advocacia ao voltar para o Brasil.  Conquistara ainda em Portugal sua fama de poeta, e de volta a terra natal passou a compor poemas dramáticos que eram recitados em teatros no Rio e em Vila Rica. Foi nomeado secretário do governo de Minas pelo governador Gomes Freire de Andrade, conde de Bobadela, cargo que exerceu intermitentemente entre 1762 e 1773. Além de uma clientela respeitável, adquiriu riqueza com sociedades em minas de ouro, além de uma fazenda de criação e um negócio de concessão de créditos. Recebia em sua mansão numerosos intelectuais e poetas mineiros. Aos 60 anos de idade, integrou-se ao movimento conspiratório que viria a ser conhecido por Inconfidência Mineira. Juntamente com o cônego Luis Vieira da Silva, Claudio Manoel da Costa recebeu a incumbência de elaborar uma constituição provisória. Homem de grande riqueza e prestígio na região, supõe-se ter sido um propagador dos ideais da rebelião entre a elite mineira. Preso, foi interrogado pelos juízes da Alçada, em 2 de julho de 1789. Segundo alguns depoimentos da época, encontrava-se assustado e nervoso durante o interrogatório, e acabou por comprometer os companheiros, esclarecendo pontos-chave da conspiração. Foi encontrado morto dois dias depois no cubículo da Casa dos Contos. Sua morte suscita polêmica há duzentos anos: para alguns, suicídio; para outros, assassinato, talvez por ordem do próprio visconde de Barbacena, governador de Minas Gerais, que segundo os defensores da tese de assassinato, poderia ser implicado na conspiração pelo poeta e advogado. Era solteiro e deixou filhos naturais.
3 CÔNEGO LUIS VIEIRA DA SILVA. Nascido na atual cidade de Congonhas do Campo, em 1735, assumiu o posto de professor de filosofia no Seminário de Mariana em 1757 e lá permaneceria até 1789. No levante mineiro, sua participação incluiria a formulação de um arcabouço jurídico para o regime a ser implementado. Luis Vieira era um padre erudito, com uma biblioteca que contava cerca de 600 volumes. Defendia a independência das terras americanas em relação aos países europeus, cujo exemplo maior eram os acontecimentos na América do Norte, na década anterior. O cônego demonstrava não se opor, necessário fosse, à instalação de um império luso-brasileiro com sede no Brasil, idéia que já na época encontrava seus adeptos. Foi preso em junho de 1789, e interrogado na Casa dos Contos, em Vila Rica. A sentença de d. Maria I o enviou para degredo em São Tomé, onde passou 4 anos, depois dos quais conseguiu sair do cárcere e recolher-se em convento. Foi um dos inconfidentes que acabou retornando ao Brasil.
4 TOMAS ANTONIO GONZAGA. Nascido em 1744, Tomas Antônio Gonzaga ganhou fama como poeta, em especial como autor de Marília de Dirceu e das Cartas Chilenas, sátira virulenta que tinha como alvo o venal governador de Minas na época, Luis da Cunha Meneses. O antagonismo entre Cunha Meneses e Tomás Gonzaga, aliás, bem demonstra o tipo de conflito que emergia na confusa e dinâmica região das minas, resultado de uma máquina administrativa que permitia a sobreposição dos interesses da Coroa, daqueles que ocupavam postos de funcionários desta e de indivíduos que apenas intencionavam explorar a riqueza da terra de forma privada. Ouvidor de Vila Rica, nascido em Portugal e criado no Brasil. Era apontado como provável primeiro governante de um Brasil livre — ou antes, das Minas Gerais livres. Os escritos deixados por ele deixavam entrever um pensador alerta, perspicaz, crítico da tirania de alguns monarcas mas muito mais afinado com uma monarquia constitucional do que com a democracia republicana dos norte-americanos. Foi um dos primeiros implicados no levante de 1789, preso ainda no mês de maio e logo remetido para o Rio. Seus depoimentos pouco revelaram, sustentando até o fim que jamais ouvira falar em sedição alguma. Foi condenado a degredo em Moçambique, onde acabou por casar-se e reconstruir sua vida, terminando a carreira como funcionário da Coroa, e também exercendo a sua profissão original de advogado.
5 INÁCIO JOSÉ DE ALVARENGA PEIXOTO. Nasceu no Rio de Janeiro em 1744 e estudou em Coimbra, na mesma época que Tomás Antônio Gonzaga. Terminados seus estudos, começou a carreira na magistratura em Portugal. Foi transferido para o Brasil, onde ocupou o cargo de ouvidor de Rio das Mortes. Protegido do marquês de Pombal, com a queda deste acaba por deixar a carreira pública, passando a dedicar-se aos negócios da família da sua esposa, a poetisa Bárbara Heliodora. Alvarenga Peixoto também se dedicava à poesia, e por ser dedicado a festas, saraus e, segundo relatos contemporâneos, cultivar amplos círculos de amizade, tornaram-no uma figura popular na região das minas, embora também o deixasse exposto a intrigas e denúncias. Foi um dos principais líderes da conspiração em Minas, grande entusiasta da independência, um dos únicos a defender o fim da escravidão — embora fosse, ele próprio, dono de terras, minas e escravos. Em fins da década de 1780, encontrava-se extremamente endividado o que funcionava como mais um incentivo para a sua participação na revolta contra a Coroa. Apesar das dívidas, contudo, suas propriedades superavam o montante devido, e o arrolamento de bens dos inconfidentes nos Autos da Inconfidência ainda o colocam no topo da lista de homens mais ricos. Diz-se que a senha para a eclosão da revolta nasceu de uma celebração em sua casa — o batizado de um dos filhos. Foi um dos principais denunciados e estava entre os primeiros a serem presos por ordem do visconde de Barbacena, ainda em maio de 1789. Condenado ao degredo, em Angola, morreu em 1792, pouco tempo depois da sua chegada.
6 CONTRATADOR. A figura do contratador, a quem cabia a cobrança dos mais variados impostos sobre produção e circulação de bens, existia desde o nascimento do estado absolutista português. Ela foi incorporada a estrutura de poder na América portuguesa, tornando-se peça chave nas relações de poder existentes entre os colonos, e entre os colonos e a Coroa. Não era um “funcionário público” como nós hoje concebemos. Apresentava-se como um oficial particular a serviço do Rei, que havia conquistado tal privilégio através de arrendamento. O sistema de administração colonial português permitia que interesses particulares se imiscuíssem na lógica pública e vice-versa, em uma relação obscura e mal delineada que caracterizava o próprio estado português. Até porque, segundo o princípio básico do absolutismo que confundia o monarca com o estado que administrava e o povo que governava, a esfera privada ainda não existia de forma independente da figura do monarca-soberano. O arremate de contratos em geral era feito por pessoas “de cabedal”, e representava status e capital político importante, em especial em uma região populosa quanto a das minas.
7 DERRAMA. A derrama era o recolhimento compulsório e extraordinário de todos os impostos que a Coroa portuguesa considerava que lhe eram devidos. O sistema estabelecido na primeira metade do século XVIII baseava-se no quinto do ouro extraído, nem sempre pago devido especialmente a decadência e exaustão das minas de ouro. O imposto, cobrado a toda população, acumulou-se, e em 1788 a Coroa exigia o pagamento ao correspondente a mais de quinhentas arrobas de ouro, em ouro, gado, produtos, etc. Muitos entre os líderes da rebelião encontravam-se em dívida com o Real Erário, e o decreto da derrama seria o evento que determinaria a eclosão da revolta, o que não chegou a ocorrer já que o visconde de Barbacena adiou o início da cobrança.
8 INTENDENTE. A intendência das minas foi criada pelo regimento das minas em 1702. Cada vila adjacente a áreas de mineração contaria com um intendente nomeado pelo rei, auxiliado por um guarda-mor, que seriam responsáveis pela demarcação de cada nova área de mineração descoberta e subsequente distribuição. À intendência também cabia a cobrança do imposto sobre o ouro.
9 AMERICANOS INGLESES. A independência das colônias inglesas da América do Norte, levada a cabo pelos treze territórios na costa leste do que é hoje os Estados Unidos em 1776 inspirou os rebeldes mineiros de 1789. Talvez nem tanto pelos ideais republicanos, quanto por alguns paralelos existentes entre o processo que levou à independência norte-americana e as angústias e expectativas dos mineiros: a América do Norte, como o Brasil, encontrava-se sob jugo de uma metrópole, no caso, a Coroa britânica. E como no Brasil, a insistência em uma taxação considerada imprópria pelos colonos fora o estopim para a organização de uma revolta de caráter separatista. Já em 1786 Thomas Jefferson, founding father da nação americana e na época embaixador dos Estados Unidos na França, recebeu correspondência assinada por “Vendek”, — pseudônimo de José Joaquim Maia Barbalho — vinda da Universidade de Montpellier, com quem trocaria algumas cartas. Nelas, o remetente alegava que o Brasil sentia-se impulsionado a seguir o exemplo dos norte-americanos e livrar-se da servidão em relação a Portugal. Afirmava encontrar-se em Paris a realizar a missão de conseguir apoio externo, notadamente dos Estados Unidos, para a empreitada. Embora sua atenção fosse atraída pelas riquezas do território brasileiro e pela possibilidade de obter privilégios comerciais com o Brasil, Thomas Jefferson mostrou-se cauteloso, até porque estava ciente da necessidade de dar auxílio material para os revoltosos, e também porque a uma nação recém-nascida não interessava entrar em conflitos com nações já estabelecidas.
10 ALFERES. Posto do exército correspondente a segundo-tenente, portanto, oficial de baixa patente.
11 JOAQUIM JOSÉ DA SILVA XAVIERJoaquim José da Silva Xavier nasceu em 1746 na região em que hoje se encontra São João Del Rei. Uma das suas ocupações consistia em arrancar dentes ruins e colocar “novos”, feitos de osso, o que lhe rendeu, além da alcunha de Tiradentes, um importante papel de arregimentador para a rebelião gestada em Minas em 1788/ 89. Suas declarações abertas deixavam entrever ressentimentos em relação ao exército por sentir-se preterido em missões e promoções na carreira militar, na qual ingressou em 1775, após uma experiência não muito bem sucedida na mineração.Tiradentes foi um dos maiores propagandistas do levante, e cujas idéias mais claramente apresentavam aquele viés de “nacionalismo econômico” caracterizado pela defesa e enaltecimento dos recursos naturais da colônia, superiores em muito aos da metrópole. Compunha o grupo de inconfidentes para quem a questão política colocava-se acima das contingências financeiras imediatas. Não apoiou o fim do tráfico negreiro, ou da escravidão, embora o autor que mais citasse publicamente (o Abade Raynal) a condenasse. Pertencia ao núcleo central de revoltosos que dariam início ao levante assim que a derrama fosse anunciada, e embora sua família não fosse desprovida de recursos e nem tampouco ele próprio tão pobre quanto posteriormente fariam crer os mitos criados em torno de sua figura, sua trajetória profissional acabou por colocá-lo em uma posição desconfortável a meio-caminho entre os mineiros ou fazendeiros, e os artesãos de formação mais simples. Também seu posto de alferes no corpo de Dragões fazia dele uma peça chave fundamental no levante, já que dos soldados dependeria o êxito inicial do movimento. Após sua prisão, inicialmente nega a existência de uma conspiração em Minas, embora confirme a inquietação do povo com a derrama. Com o tempo, contudo, acaba por se confessar o cabeça de um levante cujo objetivo seria o de restaurar os princípios de justiça que deveriam governar os povos. De todos os condenados à morte, foi o único que não recebeu indulto, morrendo na forca em 1792 e esquartejado, como mandava o código da época. Cerca de cem anos depois, a figura de Tiradentes, como a própria “inconfidência” em si, seria recuperada pelos republicanos, e em torno desta personagem e deste evento seriam tecidas teias complexas de mitos e significados, a confundir idéias e ideais, lenda e história.
12 REPÚBLICA Embora a noção de república tenha sido, desde a Revolução Francesa, associada à idéia de democracia, tal relação não necessariamente mostra-se tão direta. No século XVIII, os questionamentos em relação à origem da soberania e da natureza do soberano tomaram a forma de escritos em filosofia e política que tentavam estruturar formas de governo e concepções de estado que melhor conviessem aos novos tempos, em que a burguesia começava a impor uma outra dinâmica aos negócios públicos.República (do grego, “coisa pública”) é um conceito criado na Grécia antiga, onde a discussão em torno das formas de governo em geral se balizava em torno de oposições recorrentes: monarquia/ república, governo de um/ de poucos/ de muitos, este último associado à república. Pensadores romanos, em especial Cícero (a partir de uma discussão iniciada com Políbio), recolocaram a questão e transformaram a república em uma das formas possíveis de organização do estado baseada no bem público e consenso jurídico, o que colocou a justiça e a legitimidade no centro da discussão sobre as formas de governo, em lugar do número de governantes. Pensadores modernos retomam a discussão para tentar estabelecer, especialmente, a origem da soberania, e portanto, do governo justo, e da forma mais adequada de governo para cada povo. Um dos autores mais presentes entre os revoltosos das Minas acabaria por retomar a oposição entre república e monarquia. Contudo, Montesquieu não defendia necessariamente a república como o melhor governo, mas sim, que cada nação, por suas características, mais prosperidade encontraria se adotasse a forma de governo mais compatível. A apropriação feita pelos inconfidentes mineiros da idéia de república bem demonstra a indefinição que cercava este conceito na época, posto que a defesa de um governo justo, regulamentado, colocava-se em primeiro plano, muito mais do que a implantação de uma república democrática, representativa como nós hoje concebemos. Os inconfidentes, embora defendessem a república como uma forma de governo, ainda possuíam uma noção muito geral do que isto significaria na prática, o que acarretava algumas inconsistências em seus limitados planos pós-independência. 
13 COIMBRA. A cidade de Coimbra teve origem na colina da Alta que, além de fornecer uma excelente posição estratégica à cidade, constituía também um local de passagem quase obrigatório entre o norte e o sul de Portugal. Tornou-se a cidade mais importante ao sul do Douro, após a expulsão dos mouros do território português na Península Ibérica (século XII). Em 1385, d. João I, conhecido também como mestre de Avis, foi levado ao trono durante uma reunião das Cortes em Coimbra em meio a crise sucessória que envolvia o rei de Castela. A Universidade mais antiga de Portugal foi fundada em 1290, inicialmente instalada em Lisboa mas posteriormente transferida, em definitivo, para Coimbra. Inicialmente os estudos básicos constituíam-se em: direito canônico, direito civil, artes, e medicina. No século XIV a Teologia incorporar-se-ia ao currículo. Em 1772 o marques de Pombal realiza uma reforma nos ensino superior - que deveria privilegiar a ciência moderna e experimental, abolindo, de modo geral, o ensino nos moldes da Segunda Escolástica praticado pelos membros da Companhia de Jesus - e os novos estatutos da universidade, que passam a dar maior destaque ao ensino científico, recebem o nome de “estatutos pombalinos.”A elite colonial desde cedo adquiriu o hábito de enviar seus filhos a Coimbra, e alguns envolvidos na inconfidência mineira haviam estado lá completando seus estudos, onde também entraram em contato com as teorias liberais dos iluministas que começavam a revolucionar o mundo. 
14 JOAQUIM SILVÉRIO DOS REISJoaquim Silvério dos Reis passou para a história como o grande traidor da inconfidência mineira e, por conseguinte, da nação. Nascido em Portugal, havia sido contratante de entradas, e achava-se em débito com o Real Erário na época em que o levante começou a ser fomentado. Durante o governo de Cunha Meneses, acabou granjeando fama de corrupto e distribuidor de subornos, e chegou a receber alguns favores, como poderes especiais para a execução de dívidas, que permitiam burlar as autoridades formais da Coroa. Seu contrato encerrara-se em 1784, sua dívida só fazia crescer e, com a chegada do visconde de Barbacena, substituto de Cunha Meneses, Silvério dos Reis recebeu a primeira má notícia: extinção dos regimentos auxiliares criados pelo antigo governador, na qual recebia uma comissão. A anunciada derrama tornou-o ainda mais inquieto, fazendo com que esquecesse antigas desavenças (como por exemplo, com Tomas Antonio Gonzaga) para integrar-se ao grupo de conspiradores que pretendiam insurgir-se contra as arbitrariedades da coroa portuguesa. Em meados de março de 1789, após a suspensão da derrama e consequentemente do próprio levante, Silvério dos Reis denuncia verbalmente o movimento ao visconde de Barbacena. Suas razões parecem obscuras: a carta à câmara de Vila Rica anunciando a suspensão da derrama, que inicialmente fora prevista para fevereiro, é enviada em 14 de março, antes da acusação. Assim, provavelmente Barbacena tomara a sua decisão com bases outras que não o conhecimento de um levante a ser iniciado pelo anúncio da cobrança dos impostos atrasados. Por outro lado, a expectativa quebrada ainda em fevereiro possivelmente arrefeceu os ânimos dos inconfidentes, que perceberam que, sem o sentimento de indignação e opressão desencadeados pela derrama seria difícil realizar uma revolta bem-sucedida. A denúncia de Silvério, realizada no dia seguinte à suspensão formal da derrama, talvez possa ser explicada pelo desânimo em relação à não realização do levante, que para ele significava a manutenção da sua condição de grande devedor do Real Erário, ao passo que a rebelião o libertaria das amarras da sua antiga comissão frente a Coroa. E, de fato, no início de março a Junta da Fazenda já havia convocado Silvério, descrevendo-o como “fraudulento e falsificador.” Sua deserção expressa a fragilidade de um grupo considerável dentro do movimento, que agia com base em motivações exclusivamente econômicas contingentes. Após a denúncia verbal, Barbacena transformou o delator em espião, e poucas semanas depois da intimou Silvério dos Reis a formalizar suas acusações em papel. Enviado ao Rio de Janeiro pelo visconde para entregá-las ao vice-rei, acaba preso ele mesmo, posto que este último o considerava perigoso e possivelmente participante da inconfidência que denunciava. Recebeu o perdão real e uma série de recompensas. Contudo, jamais voltaria a se sentir confortável entre seus pares, que o consideravam venal e indigno. 
15 FAZENDA REAL. O termo se refere a economia real de uma forma geral, em especial no que diz respeito a administração das riquezas. No presente contexto, a instituição mais relevante parece ter sido o Erário Régio. Criado em 1761 com a intenção de diminuir a pulverização da administração financeira e especialmente na arrecadação e depósito de rendas, o erário é um exemplo significativo das reformas centralizadoras empreendidas pelo marques de Pombal. Em março de 1767, o Erário Régio foi instalado no Rio de Janeiro com o envio de funcionários instruídos para implantar o novo método fiscal na administração e arrecadação da Real Fazenda. 

Fim do conteúdo da página