Ir direto para menu de acessibilidade.
Página inicial > Temas > Império luso-brasileiro > Franceses na colônia > Sala de aula > Capitulação ajustada com Duguay-Trouin
Início do conteúdo da página

Capitulação ajustada com Duguay-Trouin

Escrito por Super User | Publicado: Segunda, 25 de Junho de 2018, 11h47 | Última atualização em Segunda, 25 de Junho de 2018, 11h47

 

Capitulação ajustada por João de Paiva Souto Maior, em nome do governador Francisco de Castro Moraes, com o corsário francês Duguay-Trouin na qual fica acertada a quantia de 610.000 cruzados, 100 caixas de açúcar e 200 cabeças de boi para o resgate da cidade do Rio de Janeiro. Também fica acertada a compra de pólvora e outras mercadorias dos invasores franceses por comerciantes do Rio de Janeiro, antes de seu embarque e partida definitivos.

Conjunto documental: Livro original de termos e homenagens
Notação: códice 11
Data-limite: 1709-1788
Título do fundo: Secretaria do estado do Brasil
Código do fundo: 86
Argumento de pesquisa: estrangeiros, franceses
Data do documento: 10 de outubro de 1711
Local: Rio de Janeiro
Folha(s): 7-7v

Capitulações1 que o governador Francisco de Castro Moraes2 ajustou com o inimigo francês nesta cidade cujo teor é o seguinte.

Saibam quantos este público instrumento dado, e passado em pública forma do ofício de mim tabelião virem que no ano do nascimento de nosso senhor Jesus Cristo de mil setecentos e onze anos, aos onze dias do mês de novembro do dito ano nesta cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro3 em pousada do juiz de fora4 doutor Luís Forte Bustamante aonde eu tabelião fui e sendo aí por ele me foi apresentada uma resposta do senhor governador às capitulações do senhor general francês, cujo teor é o seguinte.

Que promete de pagar seiscentos mil cruzados em doze ou quinze dias; e que por não sentir donde possa tirar mais contribuição deste povo5, ofereceu a sua senhoria cem caixas de açúcar6, duzentos bois, e dez mil cruzados em dinheiro, ficando com o sentimento de se não achar com mais para lhe oferecer; e o sobredito ajuste é pelo resgate da soberania da terra, Cidade Redonda7, e suas fortalezas com todas as artilharias a elas pertencentes.

Que a pólvora se comprará8 aos senhores oficiais franceses.

Que pela manhã irão os reféns até satisfazer o dinheiro prometido.

Que as mais condições se acomodarão com a intenção de sua senhoria para o embarque das tropas.

E que para as mercadorias enviará homens de negócio que tenham dinheiro para comprá-las9 ficando desde hoje em paz assim com os moradores do país como com as embarcações que entrarem nele.

Campanha dez de outubro de mil setecentos e onze anos.

Le chevalier Duguay Trouin10 = Vue par nous chevalier conseiller du roi en ses conseilles, inspecteur general de la Marine et conseiller au parlement de ilegível.

João de Paiva Souto Maior

O qual traslado de instrumento trasladei bem e fielmente do próprio que me reporto, e o corri concertei escrevi e assinei em público e raso nesta cidade aos onze dias do mês de novembro de mil setecentos e onze anos.

Em testemunho de verdade.

João de Carvalho e Matos

 

1 Termo de rendição de guerra. As capitulações ajustadas entre o governador do Rio de Janeiro e Duguay-Trouin tornaram-se célebres por terem sido consideradas vergonhosas à época. Representam a rendição da cidade do Rio de Janeiro ante o inimigo francês que a invadiu sem encontrar maior resistência por parte dos moradores e das tropas locais. A atuação hesitante do governador, que preferiu entregar as riquezas da cidade a enfrentar os invasores, rendeu-lhe a prisão e o degredo.
2 Governador da cidade do Rio de Janeiro no período das duas invasões francesas, de Du Clerc, em 1710 e de Du Guay Trouin, no ano seguinte. Na ocasião da primeira invasão, conseguiu, a muito custo, evitar a invasão e prender os franceses, inclusive o líder, Du Clerc, que acabou morrendo preso em 1711. Durante a invasão de Trouin teve fraca atuação, não oferecendo grande resistência. Tendo sido avisado de que um grande corso de aproximava do Rio de Janeiro, visando tomar a cidade, Morais deu início à preparação dos fortes e tropas, mas acabou suspendendo as medidas preventivas ao não notar nenhuma movimentação no mar. Os navios da armada surpreenderam os moradores, entrando muito rapidamente na baía, sob neblina, e pegando a cidade despreparada. Talvez essa grande surpresa explique a falta imediata de ação do governador. A população fugiu com seus bens de maior valor para os sertões no entorno da cidade, e Morais, temeroso, e aguardando socorro das tropas de Antônio de Albuquerque que viriam das Minas Gerais, acabou sucumbindo e oferecendo que Du Guay pilhasse a cidade e levassem grande quantia em dinheiro e gêneros, alguns próprios, para que ele reunisse seus homens e deixasse a cidade, o que acabou acontecendo. A pedido dos vereadores, que questionaram a ação do governador, a Coroa mandou que se fizesse uma devassa dos acontecimentos ocorridos e Morais foi condenado por crime de covardia contra a cidade e os bens reais, que traía os princípios de nobreza. Teve seus privilégios cassados e foi responsabilizado pela derrota na invasão, levado à prisão perpétua em um forte na Índia.
3 A cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro foi fundada tendo como marco de referência uma invasão francesa. Em 1555 Villegaignon conquista o local onde seria a cidade e cria a França Antártica. Os franceses foram expulsos em 1567 por Mem de Sá, que estabelece ‘oficialmente' a cidade e inicia, de fato, a colonização portuguesa na região. O primeiro núcleo de ocupação foi o morro do Castelo, onde foram erguidos o Forte de São Sebastião, a Casa da Câmara e do governador, a cadeia, a primeira matriz e o colégio jesuíta. Ainda no século XVI o povoamento se intensifica, e na governação de Salvador Correia de Sá se dá um certo desenvolvimento da cidade, com aumento da população no núcleo urbano, e das lavouras de cana e dos engenhos de açúcar no entorno. No século seguinte, o açúcar se expande pelas baixadas que cercam a cidade, que cresce aos pés dos morros, ainda limitada pelos brejos e charcos. O comércio começa a crescer, sobretudo o de escravos africanos, nos trapiches instalados nos portos. O ouro que se descobre nas minas gerais do século XVIII representa um grande impulso no crescimento do Rio de Janeiro, cujo porto ganha em volume de negócios, sendo o grande elo de ligação entre Portugal e o sertão, transportando gêneros e gente para as minas e ouro para a metrópole. É também neste século que a cidade vive duas invasões de franceses, entre elas a do célebre Du Guay Trouin, que arrasa a cidade e os moradores. Ao longo do setecentos começam os trabalhos de melhoria urbana, principalmente no aumento da captação de água nos rios e construção de fontes e chafarizes para abastecimento da população. Um dos governos mais significativos deste século foi o de Gomes Freire de Andrada, que edificou conventos, chafarizes, e reformou o aqueduto da Carioca, entre outras obras importantes. Mas talvez o maior marco para a cidade tenha sido sua transformação em capital do Estado do Brasil em 1763, quando os vice-reis assumem o governo a partir do Rio de Janeiro. A cidade cresce, se fortifica, abre ruas, e tenta mudar de costumes. Um dos responsáveis por essas mudanças foi o marquês do Lavradio, cujo governo deu grande impulso às melhorias urbanas, voltando suas atenções para posturas de aumento da higiene e da salubridade, aterrando pântanos, calçando ruas, construindo matadouros, iluminando praças e logradouros. Foi também ele quem criou o mercado do Valongo e transferiu para lá o comércio de escravos africanos que se dava nas ruas da cidade. O Rio de Janeiro deu um novo salto de evolução urbana com a instalação aqui em 1808 da sede do Império português. A partir de então a cidade se moderniza e empreende um grande esforço de civilização. Assume definitivamente o papel de cabeça do Império, posição que irá sustentar para além do retorno da Corte, como capital do Império do Brasil, já independente.
4 Magistrado que ocupava um cargo criado no Brasil em 1696. Nomeado pelo rei por três anos, possuía as seguintes atribuições: aplicar justiça contra aqueles que cometessem crimes em sua jurisdição; compor as sessões da Câmara; cumprir as funções de juiz dos órfãos nas localidades desprovidas deste ofício de justiça; dar audiências nos conselhos, vilas e lugares de sua jurisdição; garantir o respeito do clero à jurisdição da Coroa. Em fins do século XVIII, assumiu as atribuições antes delegadas ao juiz ordinário ou da terra, pois se acreditava que ele obteria isenção na administração da justiça aos povos, por não possuir vínculos pessoais com os mesmos. Como o próprio nome já diz, originalmente este juiz vinha de fora da Colônia, isto é, do Reino. A criação do cargo significou o reforço da autoridade régia sobre os territórios ultramarinos.
5 Com a invasão dos franceses ao Rio de Janeiro, a maior parte dos habitantes, especialmente os comerciantes e proprietários de posses, fugiram para os sertões ao entorno da cidade carregando suas riquezas, visando a escondê-las dos saques promovidos pelos corsários, abandonando mulheres e filhos a mercê dos franceses. Por essa razão o governador Francisco de Moraes acreditava ser difícil obter mais alguma riqueza, pois o que não havia já sido pilhado pelos corsários daqueles que ficaram na cidade, achava-se escondido com seus donos nos sertões.
6 Em Portugal, a cultura da cana-de-açúcar foi introduzida no Algarve e na região de Coimbra, no século XIV, passando à ilha da Madeira, na costa africana, em meados do século seguinte. Não há precisão quanto à data de introdução da cana-de-açúcar no Brasil, mas há um certo consenso quanto ao início da maior sistematização de seu plantio, a partir da segunda metade do século XVI. A fabricação do açúcar exigia alguns requisitos: a instalação de um engenho, que demandava capitais consideráveis, e trabalhadores capazes de dar o ponto de cozimento adequado. Os engenhos eram estabelecidos próximos a um curso de água, que servia de força motriz para a moenda e de escoadouro para a produção (engenho real). Mas também havia, e em maior número, aqueles movidos à tração animal (trapiches). Exceto pelos trabalhadores especializados, livres e assalariados, a mão-de-obra dos engenhos era predominantemente escrava. De início, recorreu-se aos indígenas, mas após 1570 os africanos tornaram-se cada vez mais comuns. O comércio transatlântico de escravos converteu-se em um lucrativo negócio nessa época. O cultivo da cana de açúcar progrediu ao longo do litoral brasileiro na direção Norte, se desenvolvendo mais no Nordeste, especialmente na capitania da Bahia e de Pernambuco, sendo esta última a maior produtora de açúcar do Brasil, contando com 66 engenhos no fim do Quinhentos. Nesse período, a maior parte do açúcar brasileiro destinava-se ao mercado internacional, chegando a portos do norte da Europa, especialmente Londres, Hamburgo, Antuérpia e Amsterdã, aonde era refinado e comercializado. Apesar disso, a cultura da cana-de-açúcar foi muito importante, também, para o mercado interno. Muitos engenhos aproveitavam a cana para a produção da aguardente, usada em grande escala no tráfico de escravos. A fabricação de açúcar foi, seguramente, o primeiro empreendimento econômico a funcionar, de modo organizado, nas terras brasileiras. Outras atividades surgiram, mas a empresa açucareira se como principal atividade por mais de um século.
7 Não há referência clara para este termo. Refere-se, provavelmente, à parte urbanizada da cidade, onde há construções, moradias, e não aos terrenos alagados, morros e áreas não ocupadas. Pode-se sugerir também uma alusão também ao formato da ocupação urbana, em torno da baía e limitada pelos morros, que fazia com que os contornos da cidade fossem circulares ou curvos, daí a cidade "redonda".
8 Outra nota que aponta a irregularidade da rendição da cidade do Rio de Janeiro para os franceses. A capitulação acertava que os corsários poderiam vender a pólvora que haviam pilhado dos armazéns aos moradores e às tropas, obtendo assim mais renda para que deixassem a cidade, que não ficaria totalmente desguarnecida de munição e armamentos.
9 O mesmo que aconteceu com a pólvora, sucedeu-se com as mercadorias que os franceses conseguiram pilhar aos moradores e casas de comércio da cidade. Para reaverem seus pertences, especialmente fazendas e outros artigos, os comerciantes e a elite local, sobretudo, precisaram comprá-los de volta, aumentando a renda dos franceses para deixarem a cidade, e a humilhação dos habitantes do Rio de Janeiro, em face de uma entrega tão fácil da cidade aos estrangeiros.
10 A segunda invasão francesa ao Rio de Janeiro ocorreu em 12 de setembro de 1711, sob o comando do corsário francês Duguay-Trouin, numa tentativa de reparar e vingar a derrota sofrida por Jean François Du Clerc (?-1711) que tentara ocupar a cidade alguns meses antes. Depois de pilhar a cidade e afastar a população para o interior, Duguay-Trouin exigiu o pagamento de um resgate sob pena de destruí-la. Libertou os prisioneiros feitos na primeira invasão de Du Clerc e os cripto-judeus que seriam enviados à Inquisição em Portugal. O governador Francisco de Castro Morais acabou permitindo que o corsário levasse todo o ouro e riqueza que conseguisse encontrar, tendo em vista que, na fuga para o interior, a população carregara consigo seus pertences de valor, tornando impossível arrecadar o resgate exigido. Enquanto esteve ocupada, a cidade do Rio de Janeiro foi duramente saqueada, e teve vários prédios e construções destruídos pelo fogo ou pela tropa invasora. René Du Guay Trouin (1673-1736), nascido na Bretanha, região norte da França que despontava para o mar, fazia parte de uma família de comerciantes e armadores de corso, que conquistou cargos e nobreza graças à sua atividade nos mares, sempre exercida em nome do rei de França.


Sugestões para uso em sala de aula

Utilizações possíveis:

* Nos eixos temáticos: "História das representações e das relações de poder".
* Ao abordar o sub-tema: "Nações, povos, lutas, guerras, revoluções".

Ao tratar dos seguintes conteúdos

* Processo de constituição do território, da nação e do Estado brasileiro.
* Administração colonial;
* Construção de memórias de grupos;
* Expansão colonial pelos Estados Nacionais europeus

Fim do conteúdo da página