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Festas Coloniais

Sala de aula

Escrito por cotin | Publicado: Segunda, 05 de Fevereiro de 2018, 17h33 | Última atualização em Segunda, 05 de Fevereiro de 2018, 17h33

Batismo no Brasil colonial

Carta do conde de Aguiar para o Bispo Capelão Mor informando sobre o batismo do infante, filho de dona Maria Teresa com o infante d. Pedro Carlos. Informava também algumas medidas de segurança que deveriam ser seguidas para impedir a entrada de pessoas não convidadas. O documento apresenta a ordem litúrgica e a importância das celebrações cristãs na nobreza luso-brasileira.


Conjunto documental: Livro de Casamento e batizados de membros da Família Real e Imperial

Notação: Códice 263

Datas – limite: 1810-1845

Título do fundo: Casa Real e Imperial / Mordomia-mor

Código do fundo: Ø0

Argumento de pesquisa: Festas oficiais

Data do documento: 12 de Novembro de 1811

Local: -

Folha (s): 8 e 8v
 

“Função do Batismo

Para o Bispo Capelão Mor
Ex.mo Re.mo Sr  = O Príncipe Regente1 Nosso Senhor, tem feito eleito da pessoa da V.Ex.a para batizar o Sereníssimo Senhor Infante2 com que Deus Nosso Senhor abençoou os desposórios da Sereníssima Senhora Princesa Real Dona Maria Theresa3 com o Sereníssimo Senhor Infante da Espanha dom Pedro Carlos. O Batismo se há de celebrar terça-feira 17 do corrente pelas seis horas da tarde na Real Capela de Nossa Senhora do Monte Carmo. Pelo que pertence á mesma Capela mandará V.Ex.a dispor nela tudo na forma que se costuma praticar em semelhantes atos. Tão bem V.Ex.a  ordenará pela parte que lhe toca, que a água que levarem os reposteiros para se fazer o batismo se benza a tempo, que quando chegar a Corte à capela, esteja tudo pronto da sorte que não haja demora.

As portas principais e travessas devem estar fechadas, para não entrarem mais pessoas do que aquelas que forem do serviço da mesma capela; os fidalgos4; os ministros dos Tribunais; os prelados maiores das religiões; os oficiais da Guerra que tiverem patente de sargento mor e daí para cima, em ordem, a cujo fim se tem mandado por guardas nas ditas portas: devendo o acompanhamento entrar e sair pela porta principal da referida capela.

Já V.Ex.a  sabe que neste dia há de haver repiques de sinos, como sempre se praticou em semelhantes ocasiões = Deus guarde a V.Ex.a em 12 de Novembro de 1811 = Conde de Aguiar5.”


1 Trata-se de d. João VI (1767-1826), segundo filho de d. Maria I e d. Pedro III, que se tornou herdeiro da Coroa com a morte do primogênito José em 1788. Assumiu a regência do Reino em 1792, no impedimento da mãe que foi considerada louca. Foi sob o governo do então príncipe regente d. João, que Portugal enfrentou sérios problemas com a França de Napoleão Bonaparte, sendo invadido pelos exércitos franceses em 1807.  Como decorrência da invasão francesa em Portugal, a família real e corte lisboeta partiram para o Brasil em novembro daquele ano, aportando em Salvador em janeiro de 1808. Dentre as medidas tomadas por d. João em relação ao Brasil estão: a abertura dos portos às nações amigas; liberação para criação de manufaturas; criação do Banco do Brasil; fundação da real biblioteca; criação de escolas e academias, e uma série de outros estabelecimentos dedicados ao ensino e à pesquisa, representando um  importante fomento para o cenário cultural e social brasileiro. Em 1816, com a morte de d. Maria I, tornou-se d. João VI, rei de Portugal, Brasil e Algarves. Em 1821, retornou com a corte para Portugal, deixando seu filho d. Pedro como regente. Deu-se, ainda, sob o seu governo, o reconhecimento da independência do Brasil no ano de 1825.

2 Infante era o título dado aos filhos dos reis da Espanha e Portugal que não eram herdeiros da Coroa.

3 Dona Maria Teresa Francisca de Assis Antonia Carlota Joana Josefa Xavier de Paula Micaela Rafaela Isabel Gonzaga de Bragança (1793-1874), era a filha mais velha de d. João e d. Carlota Joaquina. Casou-se com seu primo o infante de Espanha Pedro Carlos Antonio de Bourbon e Bragança, em 1810, no Rio de Janeiro. Com a morte do marido, em 1812, contraiu segundas núpcias com o Infante dom Carlos Maria Isidro, Duque de Madrid e Conde de Montemolin e Molina.

4 A palavra fidalgo originou-se do termo filho d’algo, indicando aqueles “bem nascidos”, que possuíam foro de nobreza.

5 Primeiro conde e segundo marquês de Aguiar, d. Fernando José de Portugal e Castro (1752-1817) foi  governador e capitão-general da Bahia durante quatorze anos. Entre 1801e 1806, exerceu o cargo de vice-rei do Brasil, ao final do qual retornou a Portugal, regressando ao Brasil junto com a corte portuguesa em 1808. Entre as funções que exerceu destacam-se: a presidência do Conselho Ultramarino, o cargo de conselheiro de Estado e ministro do reino, presidente do erário real, membro do conselho da Fazenda e da Junta do comércio e provedor das obras da Casa Real.

 

Sugestões de uso em sala de aula:

Utilização(ões) possível(is):
- Ao trabalhar o tema transversal “pluralidade cultural” 
- No eixo temático sobre a “História das representações e das relações de poder”
 

Ao tratar dos seguintes conteúdos:

- O Homem e a Cultura
- A sociedade colonial: movimentos religiosos e culturais 
- Brasil colonial: religião e sociedade

O nascimento da princesa

Carta enviada a Thomaz Antonio Villanova Portugal sobre os festejos que ocorreram nos dias de São João e São Pedro, em virtude do nascimento da princesa da Beira. Conta que no dia 24, depois de se ter louvado a Deus, ocorreram cavalhadas sérias, borlescas, bailes, danças, comédias que se repetiram no dia de “São Pedro”. O documento apresenta de que maneira a tradição cristã e a cultura popular misturavam-se nos festejos coloniais. 

 

Conjunto documental: Ministério dos Negócios do Brasil, Ministério dos Negócios do Reino, Ministério dos Negócios do Reino e Estrangeiros, Ministério dos Negócios do Império e Estrangeiros. Negócios Eclesiásticos.

Notação: 6J-82

Datas – limite: 1812-1821

Título do fundo: Diversos GIFI

Código do fundo: OI

Argumento de pesquisa: Festas oficiais

Data do documento: 5 de julho de 1819.

Local: Campamento da Real Bragança

Folha (s): 295

 

“Em cumprimento da ordem, que me foi intimada, passo a relatar pelo modo que me é possível o festejo1, que a Coluna tributou ao Nome de S. Majestade2, e do Sereníssimo Senhor Príncipe Real3 nos dias 24 e 29 de junho4 do corrente ano.

(...) Com efeito na noite do dia 23 que principiavam os festejos, o Campo de Milícias do Rio Pardo havendo acendido uma regular iluminação, concorreram a ela de todas as pessoas de diferentes classes, onde a diversidade de fogos, que haviam preparado (...) se não o mais rico espetáculo a vista, ao menos o mais afetuoso ao objeto adorável de todas as oblações, respeito. O Ex.mo.  tenente general tendo aqui assistido e concluído este ato de júbilo, se dirigiu a Praça dando pela Legião de São Paulo foram oferecidas várias contra-danças, e cavalhadas5 burlescas, que aos repetidos estrondos das Salsas publicaram a maior satisfação e prazer. Toda via o dia 24 o mais lindo, que tem raiado neste horizonte fez o cúmulo do geral, e perfeito contentamento. Ás 9 horas do dia se celebrou missa cantada, seguida de uma oração que bem desempenhou o caráter virtuoso do nosso Amabilíssimo Soberano. Neste mesmo dia as duas horas da tarde uma Companhia de Caçadores da Divisão de Voluntários Reais d’El Rei (...) executaram todas aquelas delicadas manobras, que se deviam esperar de tropa tão disciplinada; diferentes formas de combate tanto na ordem unida, como estendida ali se viram executar com satisfação de todos os militares (...)

Ao serrar da noite nosso espetáculo aparece ascendendo outra vez o mesmo júbilo, um teatro6 ataviado se não com mais rico aparato pelo menos com os enfeites de mimoso gosto e elegante perspetiva (?) (...) nele se pôs em cena o ato de Taciel, se bem que impróprio de um dia de tanta gala; porém único achado neste Campo e desempenhado por indivíduos do Regimento dos Dragões (...)

O dia 29 de junho o nome de S. Alteza o Sereníssimo Senhor Príncipe Real D. Pedro influindo igualmente o ânimo de toda a tropa, e vassalos de tão Augusto Senhor induziu a repetição da peça de Taciel, que então melhor ensaiada apareceu em cena com todo esplendor das preciosas idéias do deu compositor admirável (...)

É de minha grande obrigação confessar que o tenente general comandante com o seu admirável exemplo cooperou com maior desvelo e incansável atividade para o arranjamento de tal execução. Sua autoridade acompanhada dos sobrantes desejos que manifestou abriu todas as portas às maiores dificuldades.

Campamento da Real Bragança 4 d’julho de 1819.

O Ten.Cor.el. Manuel Carneiro da Silva e (ilegível)

Ajud.e  de Ordens de (ilegível)”

1 No primeiro século da colonização, as festividades seguiam os rituais religiosos do calendário cristão e movimentavam toda a população, caracterizando-se por uma europeização dos costumes nas terras americanas. Uma das razões possíveis para a realização dos festejos era a necessidade de conter os impulsos pagãos em terras “bárbaras”, como se dizia à época. No século XVII, as camadas mais baixas da sociedade, antes meros espectadores, foram gradativamente sendo integradas às solenidades religiosas, as quais assumiram uma nova feição através da dramatização de situações bíblicas. Aos poucos, as festividades foram abrindo espaços para o lúdico e o profano, seduzindo cada vez mais a população e tornando-se um dos poucos eventos coloniais que congregavam as diferentes camadas sociais em um mesmo espaço físico. Entre as principais manifestações estavam as festas do calendário religioso, (abarcando cerca de um terço do ano), as congadas negras e as cavalhadas dos brancos luso-brasileiros (representação da rivalidade entre portugueses e holandeses).

2 Trata-se de d. João VI (1767-1826), segundo filho de d. Maria I e d. Pedro III, que se tornou herdeiro da Coroa com a morte do primogênito José em 1788. Assumiu a regência do Reino em 1792, no impedimento da mãe que foi considerada louca.  Foi sob o governo do então príncipe regente d. João, que Portugal enfrentou sérios problemas com a França de Napoleão Bonaparte, sendo invadido pelos exércitos franceses em 1807.  Como decorrência da invasão francesa em Portugal, a família real e corte lisboeta partiram para o Brasil em novembro daquele ano, aportando em Salvador em janeiro de 1808. Dentre as medidas tomadas por d. João em relação ao Brasil estão: a abertura dos portos às nações amigas; liberação para criação de manufaturas; criação do Banco do Brasil; fundação da real biblioteca; criação de escolas e academias, e uma série de outros estabelecimentos dedicados ao ensino e à pesquisa, representando um  importante fomento para o cenário cultural e social brasileiro. Em 1816,  com a morte de d. Maria I, tornou-se d. João VI, rei de Portugal, Brasil e Algarves. Em 1821, retornou com a corte para Portugal, deixando seu filho d. Pedro  como regente. Deu-se, ainda, sob o seu governo, o reconhecimento da independência do Brasil no ano de 1825.

3 Batizado como Pedro de Alcântara Francisco Antônio João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon, d. Pedro I (1798-1834) era filho de d. João VI e de d. Carlota Joaquina. Tornou-se herdeiro da Coroa portuguesa, após a morte do primogênito Antônio, recebendo o título de príncipe real no mesmo ano da elevação de d. João a rei de Portugal (1816). Casou-se duas vezes: com Carolina Josefa Leopoldina, arquiduquesa da Áustria (1816) e com a duquesa alemã Amélia Augusta (1829), sendo também conhecido o seu romance com Domitila de Melo Castro e Canto, marquesa de Santos. Com o retorno da família real a Portugal, em 1821, d. Pedro tornou-se príncipe regente do Brasil. Os planos políticos que as cortes de Lisboa destinavam ao Brasil levou d. Pedro a romper definitivamente com Portugal, proclamando a independência do Brasil em setembro de 1822, sendo sagrado e coroado imperador e defensor perpétuo do Brasil. O reinado de d. Pedro I (1822-1831) foi marcado por inúmeros acontecimentos como: convocação e dissolução da Assembléia Constituinte; outorga da primeira constituição do Brasil (1824); a criação do Conselho de Estado, responsável pela elaboração da constituição de 1824; a instalação da Câmara e do Senado vitalício (1826); e a Guerra Cisplatina (1825-1828). Em 1831, d. Pedro abdicou do trono em favor do seu filho Pedro de Alcântara, então com cinco anos, diante da perda de apoio das elites e da popularidade, agravadas pelo fracasso militar na campanha da Cisplatina. Regressando a Portugal, assumiu a liderança nas lutas contra seu irmão d. Miguel pelo trono português. Em Portugal teve o título de Pedro IV. Amante da música e da boemia, d. Pedro I compôs o hino da Carta (posteriormente adotado como hino nacional português até 1910) e o hino da independência do Brasil. Morreu tuberculoso em 1834.

4 As datas indicam a comemoração respectivamente das festas juninas cristãs em homenagem aos Santos João e Pedro. Estas festas, de origem religiosa, foram gradativamente se popularizando. A elaboração dos festejos contava com diversos ingredientes tais como farta comida, fogueiras – conforme a tradição indicando o nascimento de São João -, danças típicas e folguedos tais como o pau-de-sebo, o quebra-pote e o trança-fita.

5 Trata-se de um folguedo popular que envolvia uma espécie de justa ou torneio. Constituindo um grande festejo, do qual participavam os fazendeiros que podiam desfilar animais ricamente enfeitados, a cavalhada apresentava um tema religioso cuja finalidade era transmitir a lição cristã de que o bem vence o mal. Para tanto, dispunha de duas partes: uma encenação teatral; e a “brincadeira”. Nessa primeira parte, era encenado o confronto entre o bem e o mal - representados, respectivamente, pelos cristãos e pelos mouros -, tendo como figura central o rei cristão Carlos Magno. Para enfatizar essa eterna luta, os cristãos vestiam-se de azul, simbolizando o céu; enquanto os mouros vestiam-se de vermelho, simbolizando o inferno. Quanto à segunda parte, esta se compunha de jogos atléticos, nos quais os participantes deveriam mostrar sua perícia como cavaleiros. O principal jogo era o da argolinha que, exigindo velocidade e destreza dos participantes, resultava na conquista de uma argolinha de ouro, prenda oferecida à namorada, noiva ou esposa. Atualmente, poucas são as cidades brasileiras que conservam a tradição da cavalhada.

6 O teatro teve sua origem na Grécia antiga, sendo decorrente das manifestações em louvor a Dionísio, o Deus do vinho. Com o advento do Império romano, o teatro espalhou-se pelo mundo. A despeito das diversas épocas que atravessou e dos variados estilos que desenvolveu, o teatro tornou-se um relevante veículo de divulgação de idéias, fossem elas religiosas ou políticas. No Brasil colonial, o teatro foi introduzido pelos primeiros colonos, que encenaram, nas igrejas, alguns autos à moda lusitana. O Auto de Santiago é considerado a primeira peça apresentada no Brasil, em 1564, na Bahia. Desde o início, o teatro representou mais do que arte e entretenimento, revelando-se um importante instrumento de auxílio na conversão dos infiéis, adquirindo um viés mais pedagógico ao ensinar aos pagãos algumas noções como, por exemplo, pecado e arrependimento. Dessa forma, atuou como veículo de pregação e convencimento. 
 

Sugestões de uso em sala de aula:

Utilização(ões) possível(is):

- O trabalhar o tema transversal “pluralidade cultural”
- No eixo temático sobre a “História das representações e das relações de poder”
 

Ao tratar dos seguintes conteúdos:

- O Homem e a Cultura
- A sociedade colonial: movimentos religiosos e culturais
- Brasil colonial: religião e sociedade

Funerais de D. José I

Os funerais do rei dom José I foram descritos nesses documentos, desde o vestuário até a realização da solenidade. Relata a elaboração do todo o cerimonial, dando instruções do papel a ser desempenhado por cada membro participante do funeral. A partir deste documento é possível dimensionar a importância marcante do ritual que acompanhava toda a trajetória dos indivíduos na colônia. As funções – o que se reflete na ordem a ser seguida na procissão – foram objeto de regulamentação nas Câmaras, delegadas a cada membro da cerimônia, possuíam um simbolismo que demarcava a posição hierárquica de poder e prestígio dos súditos reais.

 

Conjunto documental: Secretaria de Estado do Ministério do Reino

Notação: Caixa 735, pct 01

Datas – limite: 1735 - 1813

Título do fundo: Negócios de Portugal

Código do fundo: 59

Argumento de pesquisa: festas oficiais

Data do documento: 23 a 25 de Fevereiro de 1777.

Local: Lisboa.

Folha (s): -

 

Leia esse documento na íntegra

  “Para o marquês de Tancos

Forma de Acompanhamento do Corpo do Augustíssimo Senhor d. José I1

 

1º O Corpo do Augustíssimo Senhor Rei d. José I há de ser sepultado na Igreja de São Vicente de Fora2.

2º Há de sair do Paço ... e dirigir-se á Ponte de Alcântara: dela à Esperança: daí pela Boa Vista ao Arsenal: daí pela Ribeira ao Cais do Carvão: dele ao Cais dos Moiros, e Praça do Arsenal Real do Exército: dele subindo pela calçada nova ás Portas da Cruz: delas pela Estrada tão bem ultimamente aberta ao Campo de Santa Clara, e por ele ao Largo da Igreja de S. Vicente de Fora.

3º Em primeiro lugar hão de ir seis Porteiros da Cana a Cavalo com suas canas.

4º Em segundo lugar os dois Corregedores do Crime da Corte.

5º Logo se seguirão os Títulos Oficiais da Casa do Augustíssimo senhor rei d. José I, defunto, em duas alas; os títulos a mão direita, e os Oficiais a Esquerda com declaração, que os Oficiais da mesma Casa que levam insígnias hão de ir no meio das duas alas.

6º Depois se seguirão os clérigos da Basílica Patriarcal da Santa Igreja de Lisboa.

7º Segure-se á o coche com o corpo, entre os moços da Câmara, a pé, com as suas tochas acesas: E virão também os Moços da Estribeira a pé, no lugar que lhes toca, mas sem tochas.

8º Adiante do coche irá V. Ex.as , com o Mordomo Mór, com a sua insígnia; seguindo-se o marquês de Angeja, que vai servindo de Reposteiro Mór.

9º A ilharga do mesmo coche há de ir o marquês Estribeiro Mór: tendo advertência que o pescoço do cavalo, em que for, há de ir junto á última roda do coche.

10 Logo se seguirá o Coche de Respeito, e irá coberto com um pano de veludo preto, na mesma forma, em que há de ir coberto o coche em que vai o Corpo.

11 Os Capitães da Guarda Real, o conde de Resende3, e o conde de Pombeiro, hão de ir atrás do Estribeiro Mór separados dele.

12 As duas Companhias da Guarda dos Arqueiros hão de ir formadas no lugar onde lhes toca, acompanhando desde o Paço até a Igreja de São Vicente de Fora.

13 Os Presidentes dos Tribunais, Conselheiros e Fidalgos, que não forem Títulos, e quiserem acompanhar, o farão indo a cavalo com os mais nos lugares que costumam Ter em semelhantes acompanhamentos.

14 Procurar-se-á que o acompanhamento vá composto nesta forma em duas alas, por não haver confusão; e que as Religiões, e Cleros estejam arrumados, para que pelo meio possa passar o Enterro.

  

Para o Patriarca Eleito de Lisboa

Em.mo e R mo Snr.

 

Sua Majestade é servida que V. Em.cia ordene ao Cura da Santa Igreja de Lisboa4, ou a quem seu cargo servir, que no dia hoje haja de transportar particularmente os Intestinos do Augustíssimo senhor rei dom José 1º que Deus chamou á Sua Santa Glória á sobredita Igreja: E que nela ache aberta e pronta, a cova em que os referidos Intestinos hão de ser sepultados: sendo tirados do coche e levados a ela, pelos Clérigos Beneficiados, que V. Emcia nomear. E ao marquês Estribeiro Mor se avisa para que mande logo aprontar o coche em que se deve fazer a dita condução.

Deus Guarde a V.Em.cia Paço em 24 de fevereiro de 1777.

//Ayres de Sá Mello//

 Termo

Da Entrega do Cadáver do Augustíssimo Senhor Rei d. José Primeiro

 

Aos vinte e seis dias do mês de Fevereiro do Ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil setecentos e setenta e sete, nesta Santa Igreja Patriarcal, citando ali os presentes o marquês de Tancos dom Duarte Antônio da Câmara, do Conselho de Guerra, Gentil-homem da Câmara de Sua Mag.e , e Tenente General dos seus Exércitos, que foi nomeado pela rainha nossa senhora para exercitar o cargo de Mordomo Mor nos Atos Cerimoniais do Acompanhamento e Enterro do corpo do Augustíssimo senhor rei dom José 1º que Deus chamou á Bem Aventurança. O senhor dom João, do Conselho de Estado, Mordomo Mor da casa da sereníssima senhora rainha mãe, e Capitão General dos Galeões de Alto Borto do Mar Oceano. O marquês de Penalva Manoel Telles da Silva, do Conselho de Sua Mag.e , e Deputado da Junta dos Três Estados; o marquês de Fronteira dom Jozé Luis Mascarenhas, do Conselho de Sua Mag.e , e Veador da Casa da Rainha Nossa Senhora; o marquês de Pombal Sebastião José de Carvalho e Mello5, dos Conselhos de Estado e Gabinete, Inspetor Geral do Real Erário, e nesse lugar Tenente junto á Real Pessoa de El Rei Nosso Senhor, e seu Plenipotenciário, Visitador e Lugar Tentente a sua Real Pessoa na Fundação da Universidade de Coimbra6; o marquês das Minas d. Lourenço José dos Brotos e Lancastre, do Conselho de Sua Mag.e , Gentil-homem de sua Câmara, e Marechal de Campo dos seus Exércitos; o conde de Redondo Fernando de Souza Coutinho Castello Branco e Menezes, do Conselho de Sua Mag.e e Marechal de Campo de seus Exércitos; o conde de Val Reis Lourenço Filippe de Mendonça e Moura do Conselho de Sua Mag.e  Estribeiro Mor da Sereníssima Senhora Rainha-Mãe; o conde de S. Lourenço Antonio Maria César de Mello e Silva, do Conselho de sua Mag.e e Tenente Coronel do Regimento da Cavalaria do Cais; o visconde de Villa Nova da Cerveira d. Thomas de Lima, do Conselho de Sua Mag.e e Veador da Casa da Sereníssima Senhora Rainha-Mãe: E achando-se também presente d. Fernando de Souza da Silva, Principal Vigário Capitular, e Patriarca Eleito da Santa Igreja de Lisboa: logo pelo referido marquês de Tancos Mordomo Mor, foi entregue ao dito Patriarca Eleito um caixão guarnecido por fora de veludo negro liso, com uma grande Cruz de lustrina de oiro branca em cima; cercado com galões de oiro, e cravado com pregos dourados; com três fechaduras todas da mesma parte; e com dez argolas douradas, tudo uniformemente fabricado, e forrado por dentro o sobredito caixão de ilhama branca de prata; em que disse ele marquês de Tancos, e jurou aos Santos Evangélicos, em que pôs as mãos, que se achava fechado outro caixão de chumbo, que guardava o Corpo do Muito Alto, e Muito Poderoso senhor rei dom José 1º o qual em o dia vinte e três do corrente mês de Fevereiro, aos vinte e três minutos depois da meia-noite, faleceu da vida o presente no Palácio de Nossa Senhora D’Ajuda7: E que ele dito marquês de Tancos, o vira, e o reconhecera ao fechar do mesmo Caixão; havendo consigo as chaves dele, e acompanhando-o sempre junto dele, sem perder de vista, com as mais pessoas acima nomeadas: E pelo mesmo Patriarca Eleito da Santa Igreja de Lisboa foi dito que ele se dava por entregue do dito Caixão e Corpo nele depositado; e se obrigou por si e seus ilegível} no lugar, a dar sempre conta do mesmo Augusto Cadáver, ou dos Ossos dele; ficando em seu poder uma das chaves do mesmo caixão, e as outras na mão dele marquês de Tancos, para se guardarem onde pertencerem. Do que eu, Ayres de Sá Mello, por especial Ordem de Sua Mag.e , fiz lavrar dois termos deste mesmo teor; um para se remeter ao Real Arquivo da Torre do Tombo8, e outro para ficar na Secretaria d´Estado: e ambos foram assinados por todos os acima nomeados: com a declaração porém que em lugar do marquês de Pombal, que se escusou por moléstia, e pegou e assinou o conde de Soure, d. João Antonio Francisco d.ingo Bento da Costa Carvalho Patalim, do Conselho de Sua Mag.e , Tenente General dos seus Exércitos, e Provedor das Obras dos Paços Reais. Feito tudo na Santa Igreja Patriarcal, e no mesmo dia, mês e ano que fica declarado, e no principio deste termo escrito.

//Ayres de Sá e Mello//

 

Marquês de Tancos//Marquês de Penalva// Marquês das Minas//Conde de Santiago//Conde de S. Lourenço//Visconde de Villa Nova da Cerviera//D. João// Marquês de Fronteira//Conde de Redondo//

Conde de Val de Reis//Conde de Soure//F. Patriarca Eleito//

 Para o marquês de Lavradio9

Ill.mo e Ex.mo Snr.

 

Em a noite do dia de ontem, pela meia-noite e 23 minutos, chamou Deus á Sua Santa Glória o Augustíssimo senhor rei dom José 1º depois de muitos e fervorosos atos de católica resignação. E a rainha nossa senhora manda participar V. Ex.a esta infanta notícia, para que V. Ex.a concorra pela sua parte, e pelo que lhe pertence, para as demonstrações do justo sentimento de tão grande perda: ordenando que nas Praças e Terras desse Governo mande V. Ex.a fazer todas as honras fúnebres que se costumam fazer em semelhantes ocasiões: E o luto geral que a mesmo Senhora mandou que se tomasse, há de ser por tempo de um ano; seis meses rigorosos, e seis aliviados; não obstante o cap.o 17 da Pragmatica de 24 de Maio de 1749. O que V. Ex.a fará assim executar.

Deus Guarde a V. Ex.a Palácio Nossa Senhora D’Ajuda em 25 de Fevereiro de 1777.

//Martinho de Mello e Castro10//

1 d. José I, o “reformador” (1714-1777). Sucessor de d. João V, foi o único Rei de Portugal com este nome. Ficou conhecido, entre outras coisas, por ter reconstruído a parte baixa de Lisboa, atingida por um terremoto em 1755, e pela atuação do seu primeiro-ministro marquês de Pombal, que liderou uma série de reformas em Portugal.

2 A igreja de São Vicente de Fora, localizada em Lisboa, foi construída por ordem de d. Afonso Henriques (1109-1185), em 1147, em consagração ao santo de quem era devoto. A igreja foi reedificada, em 1629, e, junto a ela, encontra-se a Capela de Santo Antônio, construída no mesmo local onde foram encontrados os ossos da mão de São Vicente.

3 José Luis de Castro, 2º conde de Rezende (1744-1819). Foi nomeado vice-rei do Brasil entre 1789 e 1801,tendo sido o último vice-rei do século XVIII, enfrentando a conjuração mineira, assumindo a responsabilidade de cumprir as decisões julgadas nos autos da devassa. Como governante, procurou melhorar as finanças e condições sanitárias do Rio de Janeiro. Em suas primeiras realizações, prolongou o cais do Largo do Paço, completou o aterro do pantanal de Pedro Dias (iniciado pelo Marquês do Lavradio), aterrou o Campo de Santana transformando-o no maior rossio da cidade, que veio a se  tornar a nova atração para o povo, em ocasiões como a festa do Divino de Santana. Foi responsável também pelo fechamento e a devassa da sociedade literária do Rio de Janeiro acusada de sedição. Passou o governo ao seu sucessor d. Fernando José de Portugal.

4 Trata-se do vigário da Santa Igreja de Lisboa.

5 Marquês de Pombal (1699-1782) – Sebastião José de Carvalho e Mello, conde de Oeiras (1759) e depois marquês de Pombal (1777). Estadista português nascido em Lisboa, que se destacou como principal ministro no governo de d. José I. No cenário luso-brasileiro, foi o responsável por uma série de medidas importantes adotadas, dentre elas:expulsão dos jesuítas de todo reino português (1759); a transferência da capital brasileira de Salvador para o Rio de Janeiro (1763) e a reforma do ensino em que se destaca a da Universidade de Coimbra (1772).

6 Fundada por d. Dinis, em 1º de março de 1290, era a responsável pela formação dos membros da elite portuguesa e colonial. Alcançou grande importância e influência após as reformulações sofridas em 1772, durante a governação pombalina. Entre as modificações feitas, destaca-se a criação de duas novas faculdades (filosofia e matemática) e com elas a implantação de novos métodos de estudo e investigação. A partir de então, a reformada Universidade de Coimbra passou a ser referência e modelo para as instituições de ensino existentes na época e posteriormente criadas.

7 Construído nos séculos XVIII e XIX, localiza-se em Lisboa, sendo utilizado inicialmente para fins residenciais e administrativos das autoridades portuguesas.

8 Trata-se do Real Arquivo instituído na Torre do Tombo do Castelo de Lisboa. A Torre do Tombo, durante o Antigo Regime, foi essencialmente composta do arquivo do Rei, ou da Coroa, sendo o lugar onde se guardavam todos os tipos de registros oficiais, tais como: os tombos de registo e demarcação de bens e direitos, os documentos da Fazenda, os capítulos das Cortes, os livros de chancelaria, os registos de instituição de morgados e capelas, os testamentos, os forais, as sentenças do juiz dos feitos da Coroa, as bulas papais, os tratados internacionais, a correspondência régia e outros documentos. Desde 1378, o principal arquivo português se denomina Torre do Tombo, uma vez que os principais documentos que o rei mandava guardar - o Recabedo Regni, ou Livro do Tombo, onde se registavam as suas propriedades e direitos – localizavam-se na torre albarrã, do castelo de São Jorge, em Lisboa. Em 1755, esta torre foi destruída no terremoto que abalou Lisboa, sendo o arquivo transferido, provisoriamente, para o mosteiro São Bento, onde hoje está o edifício da Assembléia da República. Atualmente, o Arquivo Nacional português encontra-se instalado numa parte do Palácio de São Bento, também em Lisboa. Todavia, a denominação de Torre do Tombo conservou-se pela tradição.

9 Trata-se do 2º marquês do Lavradio e 5º conde de Avintes, d. Luís de Almeida Soares Portugal Alarcão Eça e Melo (1729-1790), militar e político português. Vice-rei e capitão geral de mar e de terra do Brasil, entre os anos de 1769 e 1779, fizeram parte da sua ação governamental: medidas visando à salubridade do Rio de Janeiro, mandando entulhar pântanos e lagoas, e pavimentando ruas; remoção do mercado de escravos para um local mais afastado; desenvolvimento das plantações de café e arroz; introdução da cultura do vinho,  proteção e intensificação da produção de cochonilla e bicho-da-seda; instituição na capital do Brasil regimentos de milícias e fundação da sociedade de ciências naturais.  Entre suas funções, destacou-se como: conselheiro da Guerra, presidente do Desembargo do Paço, inspetor-geral das tropas do Alentejo e Algarve, veador da rainha e conde coroado com a Grã-cruz  da Ordem de Cristo.

10 Ministro da Marinha e dos Negócios Ultramarinos entre os anos de 1770 e 1795.

 

Sugestões de uso em sala de aula:

Utilização(ões) possível(is):

- Ao trabalhar o tema transversal “pluralidade cultural”
- No eixo temático sobre a “História das representações e das relações de poder”

 
Ao tratar dos seguintes conteúdos:

- O Homem e a Cultura
- A sociedade colonial: movimentos religiosos e culturais
- Brasil colonial: sociedade de corte
- Brasil colonial: religião e sociedade

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