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Sala de aula

Escrito por cotin | Publicado: Sexta, 23 de Fevereiro de 2018, 20h04 | Última atualização em Sexta, 23 de Fevereiro de 2018, 20h04

Festas das cabanas

 

Carta ao bispo de Algarves por parte dos suplicantes judeus, que estavam requerendo do bispo a licença para fazerem sua festa denominada das cabanas. Argumentando tratar-se de uma prática antiga de sua lei, os judeus estavam solicitando a tal licença em função do aviso recebido pelos suplicantes para não realizarem a festa, a qual tinha sido proibida pelo bispo. O documento apresenta uma descrição detalhada de uma das tradições culturais do povo hebreu.

Conjunto documental: Secretaria de Estado do Ministério do Reino

Notação: caixa 662, pct.02

Datas – limite: 1812-1813

Título do fundo: Negócios de Portugal

Código do fundo: 59

Argumento de pesquisa: judeus (Portugal)

Data do documento: s.d.

Local: cidade do Faro

Folha (s): _ 

 

Dizem os judeus1, assistentes ao presente nesta cidade de Faro2, que entre os suplicantes é antiquíssimo o fazerem a festa da sua lei, denominada a festa das Cabanas3, e isto em qualquer parte ainda (sic) se acham cuja festa principia em 8 de setembro, durando oito dias, cuja festa consiste só em um quintal da sua habitação fazerem sua espécie de barraca com canos verdes, e na mesma comerem e beberem, sem que nisto dê em escândalos, porque se ajuntando as famílias de sua Nação, a noite se recolhem a suas casas, agora porém são avisados os suplicantes para tal não fazerem, porque tinha ordem de V. Exa para proibir; mas Excelentíssimo Sr. como esta festa entre os suplicantes não entra outra Nação e só sim os suplicantes Jesus, e isto se observa em toda a parte aonde os suplicantes habitam sem que lhe haja proibido, e que será muito constante a Va Exa por onde tem andando; é por isto que suplicam a V. Exa se digne conceder-lhe a licença para fazerem a sua dita festa, que eles protestam não dar o menor escândalo, como V. Exa se poderá informar, sirva-se V. Exa assim o haver por bem do que.

            E Receberá Mercê4.

1 Povo originário da Judéia, também chamado israelita, que foi expulso da sua terra natal por volta do ano 70 d. C., dando origem a diáspora judaica ou dispersão dos judeus pelo mundo. Constantemente sujeitos a perseguições, os judeus eram difamados como usurários, assassinos, ladrões, feiticeiros, etc. A presença do povo judeu no mundo ibérico foi bastante conturbada: expulsos pela Inquisição espanhola em 1492, também enfrentaram a Inquisição em Portugal, após o casamento entre d. Manoel I e Isabel, princesa espanhola filha dos reis católicos. Entre as diversas leis contra os judeus, que foram publicadas nessa época, destaca-se o édito de expulsão de d. Manoel I. A partir de então, milhares de judeus foram forçados a converter-se a fé católica, tornando-se os chamados “cristãos-novos”, mudando inclusive, seus nomes, ainda que tenham conservado, em segredo, a sua identidade. Nas várias perseguições sofridas pelos judeus, seus bens foram confiscados e saqueados, suas mulheres condenadas, como hereges, à fogueira. Com relação ao Brasil, os judeus aqui chegaram já em 1503, na condição de “cristãos-novos”, impulsionando o processo de colonização. Com a chegada de um Inquisidor Oficial no Reino, em 1531, e com a realização do primeiro “auto-de-fé” em 1540, o Brasil tornou-se uma terra de exílio, para onde eram transportados todos os réus de crimes comuns, bem como judaizantes (aqueles referentes à prática secreta da fé judaica mesmo na condição de cristãos-novos). No século seguinte, a Inquisição já se fazia presente também na América. Ainda hoje, o povo judeu mantém a sua unidade através das histórias, tradições e cultos religiosos, independente do idioma ou da nacionalidade de cada indivíduo. A diáspora judaica chegou ao fim em 1948 com a proclamação do Estado de Israel.

2 Região litorânea de Algarve.

3 Festa típica da cultura hebraica, a festa das cabanas, chamada Sucot é considerada um período alegre após as comemorações do Rosh Hashaná (ano novo) e Yom Kipur (dia do perdão). Representa o período dos 40 anos de peregrinação dos judeus no deserto a caminho da terra prometida. Por sete dias, os judeus deveriam abandonar suas casas e habitarem em cabanas frágeis para lembrarem da proteção Divina e da temporalidade da vida terrena.

4 O mesmo que graça ou benefício. Na verdade, receber mercê significava ser agraciado com algum favor, condecoração ou título pelo rei. No documento acima, este termo expressava a concessão da licença requerida.

 

 

Sugestões de uso em sala de aula:
Utilização(ões) possível(is):

- No eixo temático sobre a “história das relações sociais da cultura e do trabalho”
- No tema transversal “pluralidade cultural”

Ao tratar dos seguintes conteúdos:

- A formação da sociedade colonial
- Sociedade colonial: práticas e costumes
- A Contra-reforma e a Santa Inquisição:  conseqüências  no mundo ibérico
- Relação Igreja e Estado:  ações e conseqüências da propagação da fé católica

Judeus em Portugal

Memória de Domingos Vandelli sobre os meios de estabelecer em Portugal famílias de diversas religiões e seitas, principalmente hebreus. Propõe a tolerância a essas religiões não-católicas, com o fim político de povoação e riqueza do Estado. Vandelli comenta o “bom comportamento” dos hebreus e discorre sobre a preocupação com a possibilidade dos cristão-novos voltarem à antiga religião. O documento apresenta o problema da manutenção da unidade religiosa cristã entre os súditos da Coroa portuguesa, revelando características culturais típicas do período contra-reformista a partir do século XVI.

 

Conjunto documental: Coleção de memórias e outros documentos sobre vários objetos

Notação: Códice 807, vol 24

Datas – limite: 1796-1802

Título do fundo: Diversos códices - SDH

Código do fundo: NP

Argumento de pesquisa: Judeus

Microfilme: 001-92

Data do documento: abril de 1796

Local: s.l.

Folha (s): doc. 48

 

Leia esse documento na íntegra

 

Por causa deste Porto franco, se espalhou uma voz, que também se deveria dar franquia, ou couto aos hebreus1, que com seus cabedais se quisessem estabelecer neste Reino.

É axioma comprovado pela geral experiência que se deve aproveitar do momento favorável, porque depois fica somente o desgosto de se não ter aproveitado da ocasião.

Que momento mais favorável para um estado como Portugal, que pelo seu clima, situação, riqueza do terreno, e das colônias se pode considerar o melhor da Europa, para aproveitar-se da geral desordem da Polônia, Holanda e de grande parte da Itália; para convidar, e recolher nele muitas famílias de diversas religiões, e seitas com as suas riquezas, entre as quais concorreriam em grande número as hebréias, muitas das quais trazem origem deste Reino, e pelo qual sempre conservarão especial amor, e saudade. Em outro tempo a Inglaterra, e Holanda se aproveitaram de semelhantes emigrações.

Mas para facilitar esta importação tão útil ao Estado, e a Real Fazenda não somente das sobreditas famílias, mas de outras religiões, é indispensável dar-lhes couto, ou franquia; segurar as suas pessoas, e bens de qualquer insulto, castigo, e opressão por causa de religião.

Por motivo de povoação se permitiam coutos de malfeitores nas arraias ilegível porque razão: pela mesma e para aumentar a riqueza do Reino não se dará couto a todas as pessoas de várias religiões, ou seitas? Já neste Reino existem tais pessoas, e gozam de inteira segurança relativamente a Religião; as que não gozam tal segurança são da religião Hebréia, conservando estas sempre grande medo estabelecer-se no Reino pelo modo com o qual antes, e depois da sua expulsão2 foram tratados.

Em muitas cidades da Europa vive grande número desta gente com livre exercício da sua religião, sem que haja desordem; nem consta, que tenha feito prosélitos.

O único receio seria que algumas pessoas de origem hebréia, e que os seus antepassados foram obrigados no tempo da expulsão fazerem-se católicos, voltassem à sua antiga religião. Mas neste caso seriam sujeitos ao castigo de Apóstatas3; o que dificilmente sucederia; porque depois da sábia Lei do Sr. rei d. José, que aboliu a mal entendida distinção de Cristão novo e velho4, parece impossível que possa haver homem tão falto de brio, e honra, que se queira abaixar (sic) a ser considerado vil e sujeito ao exemplar castigo de Apóstata.

Sem religião não pode subsistir por muito tempo sociedade bem policiada, como a experiência de séculos tem mostrado.

E nesta deve subsistir uma religião dominante a qual é necessário conservar, proteger e defender; o que antigamente pertencia aos Arcebispos e Bispos, cuja autoridade tem por direito próprio(...), o que está comprovado com muita erudição em uma Memória do atual Bispo de Coimbra.

Pertence também ao Príncipe, pelas razões bem conhecidas, a defesa, e proteção desta religião. (...) pelo que além dos Tribunais, ou Magistrados incumbidos pelo mesmo príncipe pela conservação e defesa desta religião, como há em Veneza um sobre a blasfêmia, deveria obrigar todos os corregedores nas suas anuais correções devassar sobre o que respeita a Religião Dominante, sem intrometer-se com indiscreto formalismo, nas outras religiões, ou seitas que por fim político estão toleradas.

Suprimindo qualquer outra inspeção, que antes se tivesse introduzido sobre a religião.

E deste modo se aproveitará do momento favorável em vantagem da povoação, e da riqueza do Reino."

 

           

1 Povo nômade de origem semita e que, posteriormente, recebeu a denominação de judeus.

Judeus: Povo originário da Judéia, também chamado israelita, que foi expulso da sua terra natal por volta do ano 70 d.C., dando origem a diáspora judaica ou dispersão dos judeus pelo mundo. Constantemente sujeitos a perseguições, os judeus eram difamados como usurários, assassinos, ladrões, feiticeiros, etc. A presença do povo judeu no mundo ibérico foi bastante conturbada: expulsos pela Inquisição espanhola em 1492, também enfrentaram a Inquisição em Portugal, após o casamento entre d. Manoel I e Isabel, princesa espanhola filha dos reis católicos. Entre as diversas leis contra os judeus, que foram publicadas nessa época, destaca-se o édito de expulsão de d. Manoel I. A partir de então, milhares de judeus foram forçados a converter-se a fé católica, tornando-se os chamados “cristãos-novos”, mudando inclusive, seus nomes, ainda que tenham conservado, em segredo, a sua identidade. Nas várias perseguições sofridas pelos judeus, seus bens foram confiscados e saqueados, suas mulheres condenadas, como hereges, à fogueira. Com relação ao Brasil, os judeus aqui chegaram já em 1503, na condição de “cristãos-novos”, impulsionando o processo de colonização. Com a chegada de um Inquisidor Oficial no Reino, em 1531, e com a realização do primeiro “auto-de-fé” em 1540, o Brasil tornou-se uma terra de exílio, para onde eram transportados todos os réus de crimes comuns, bem como judaizantes (aqueles referentes à prática secreta da fé judaica mesmo na condição de cristãos-novos). No século seguinte, a Inquisição já se fazia presente também na América. Ainda hoje, o povo judeu mantém a sua unidade através das histórias, tradições e cultos religiosos, independente do idioma ou da nacionalidade de cada indivíduo. A diáspora judaica chegou ao fim em 1948 com a proclamação do Estado de Israel.

2 A expulsão dos judeus da Península Ibérica aconteceu no final do século XV, expressando a tentativa de cristianização da região. Os primeiros a sofrerem com a ação da Santa Inquisição foram os judeus da Espanha, migrando, em grande número, para Portugal. No reino português, os judeus mantiveram-se a salvo da Inquisição até o casamento entre o rei d. Manuel e a princesa espanhola d. Isabel. A partir de então, a conversão à fé católica passou a ser a condição para a permanência dos judeus no reino. Os que ficaram em Portugal foram obrigados a abandonar as práticas judaicas e foram batizados, tornando-se “cristãos-novos”. Mesmo assim, durante todo o período da Inquisição, estas pessoas foram vigiadas e, por vezes, perseguidas, uma vez que a Igreja desconfiava na sinceridade da recente conversão.

3 Indivíduos que foram batizados na Igreja Católica, mas abandonaram sua doutrina e a prática do catolicismo.

4 Os “cristãos-novos” eram os judeus recém convertidos ao catolicismo para escapar da perseguição promovida pela Inquisição àqueles considerados hereges. A conversão foi o meio encontrado pelos judeus para escapar das fogueiras – castigo comumente dado ao herege -, embora, em verdade, eles mantivessem as práticas e costumes judaizantes em seus lares. O “cristão-velho”, por sua vez, era aquele nascido e criado sob os preceitos e doutrinas da Igreja Católica, ou seja, justamente o contrário do “cristão-novo”.

 

Sugestões de uso em sala de aula:
Utilização(ões) possível(is):

- No eixo temático sobre a “história das relações sociais da cultura e do trabalho”
- No tema transversal “pluralidade cultural”

 

Ao tratar dos seguintes conteúdos:

- A formação da sociedade colonial
- Sociedade colonial: práticas e costumes
- A Contra-reforma e a Santa Inquisição: conseqüências  no mundo ibérico
- Relação Igreja e Estado: ações e conseqüências da propagação da fé católica

Estabelecimento dos judeus em Portugal

Memória de Domingos Vandelli sobre o estabelecimento de judeus em Portugal, sugerindo que se negociasse com os judeus empréstimos e investimentos, para assim, aumentar a povoação e riqueza do Reino. Também discorre sobre a relação entre os judeus, o Estado e a Igreja Católica ao longo da história, justificando a expulsão deles da Espanha e de Portugal por conta de um mal entendido dos reis Católicos, bem como por razões políticas do rei d. Manoel. A presença do povo hebreu em países católicos, tinha neste momento histórico, como consequência uma série de preocupações de que práticas hereges se espalham. Ao mesmo tempo, os a presença dos judeus, pela suas tradições de bons comerciantes, representavam lucros para estes países.

Conjunto documental: Coleção de memórias e outros documentos sobre vários objetos

Notação: Códice 807, vol 24

Datas – limite: 1796-1802

Título do fundo: Diversos códices - SDH

Código do fundo: NP

Argumento de pesquisa: Judeus

Microfilme: 001-92

Data do documento: s.d.

Local: s.l.

Folha (s): doc. 58

“Memória II sobre os judeus1.

Sendo esta a mais favorável ocasião nas atuais desordens da Europa, e principalmente da Polônia, da Holanda eu (sic); e no novo estabelecimento do povo franco de aumentar a povoação, indústria, comércio, e riquezas deste Reino recebendo novamente os judeus; a qual depois dificilmente se poderá aproveitar; me determina instar, que se aceitem, trabalhando-se de veras, e com atividade neste negócio, deixando a parte tudo o que agora pode inquietar o Povo com novas distinções, prerrogativas, privilégios de uma classe para diferenciá-la sempre mais das outras.

Nesta memória indicarei com brevidade:

1.       A tolerância da religião Judaica

2.       Existência dos judeus em Portugal

3.       As diligências, que fizeram para restituir-se a este Reino

4.       Causa da sua expulsão2

5.       Utilidades, que se receberam aceitando-os

6.       Regimento para o seu governo

7.       Restituição aos Bispos do seu antigo, e próprio Direito

 

1-Os Imperadores cristãos sempre toleraram a religião Judaica (...) Honório, e Theodósio proibiram aos cristãos, que não ofendessem os judeus, que por isso anualmente pagavam tributo (...)

Nos primeiros séculos da Igreja o direito Canônico tolerou os judeus (...)

Os papas concederam muitos privilégios aos judeus, v.g. ter escravos cristãos para o trabalho das terras.

Clemente III não consentiu, que se constringissem os judeus a batizar-se.

João XXII confirmou isso.

Porém deviam viver separados dos cristãos nas suas judiarias (sic), ou guetos (...), e deviam pagar como os cristãos as décimas prediais, e oblações a Igreja (...).

Na maior parte das Nações Católico-Romanas, e em Roma mesmo são tolerados, e protegidos.

2- Na ruína geral de Espanha conservaram-se os judeus entre os cristãos e Mouros3 no tempo dos godos, e foram nela conservados desde Afonso VII até d. Fernando IV; e chegaram a serem grandes ilegível dos Ministros de Espanha pelo seu préstimo, e grandes riquezas, gozando muitos privilégios com livre exercício da sua Religiões; pagando porém trinta dinheiros por cabeça.

Muitos deles foram almoxarifes.

No princípio deste Reino os judeus tiveram domicilio em Lisboa, Coimbra, Évora, Vizeu, Trancoso, Faro, Liria (sic), Covilhã, Santarém, e nos seus subúrbios; e foram quase sempre tratados com muita humanidade.

O seu Arrabi Mor4, que os governava, usava do selo com as quinas portuguesas.

Viviam em Judiarias (sic), ou guetos dentro da cidade, com guardas.

A Judiaria ou gueto de Lisboa era no princípio do Bairro da Pedreira entre o Carmo, e a Trindade; e depois se mudou para o bairro da Conceição, donde permaneceram até a sua final expulsão.

Não obstante viverem separados dos cristãos, tendo também os seus particulares açougues (sic), tomavam os contratos, e Rendas Reais, com as quais se enriqueciam de modo, que instituíam Morgados (sic).

D. Afonso II lhes proibiu ter ofícios públicos.

D. Sancho II novamente lhes os concedeu, e que conservaram até ao reinado do Senhor rei d. Diniz.

Costumavam os judeus no armamento das Naus dar uma ancora, e uma amarra por cada Nau, ou Galera.

D. Afonso III lhes confirmou todos os privilégios.

O sr. d. Diniz mandou observar os Cânones a respeito dos judeus, porém sempre lhes deu alguns ofícios; tendo nomeado d. Juda seu ministro da Fazenda, que o remunerou com a ilegível (sic) de Santarém.

E Guedelha foi tesoureiro da Rainha.

Todos os almoxarifes, e cobradores das Rendas Reais eram judeus.

D. Afonso IV lhes diminuiu os privilégios.

O sr. d. Pedro I foi seu Protetor, como também o Sr. d. Fernando, e principalmente o Sr. Rei d. João I, que lhes deu Regimento pelos seus negócios, e comércio, e lhes aumentou os privilégios.

O sr. d. Duarte os protegeu; porém o Sr. d. Afonso V restringiu os seus privilégios.

A razão desta declarada proteção aos judeus da maior parte dos nossos Reis, foi, sem dúvida, pelo grande benefício, que com eles experimentavam para o Reino, e Real Fazenda.

3- Por causa do amor da sua antiga pátria, do benefício clima, e grande comodidade do extenso comércio deste Reino, e das colônias, várias vezes os descendentes das famílias judias expulsas, tentarão inutilmente de voltar para este Reino.

E ouvi dizer, que no reinado do Sr. rei d. José chegaram a exibir sumas consideráveis para obter tal licença; e já se contentavam de estabelecer-se somente em Almada.

4- A causa da sua expulsão de Espanha e Portugal, não foi por causa de insurreições, levantamentos, ou de quererem Prosélitos (sic); porque disto não temos verídicos exemplos, e se algum louco se diz judeu como Lorde Gordan em Inglaterra, são poucos anos, haverá muitos poucos que o imitam, mas sim por espírito de Religião mal entendido de Fernando, e Isabel, Reis de Castela; e por razões políticas do Sr. rei d. Manoel.

Por tais persecuções (sic) os judeus para salvar porção dos seus cabedais ideavam, e deram princípio as letras de câmbio.

Enfim de gente industriosa, comerciante, que não tem outro fim principal, que se enriquecer; e que no mesmo tempo, pelo estado de abjeção, e vileza, na qual se acha a sua Nação dispersa, não podendo aspirar a honras, e distinções, nada se pode temer.

5- Esta era a ocasião oportuna, negociando com habilidade, na qual se podia receber dos judeus uma quantia avultada de dinheiro para restituí-los a este Reino: e também alcançar deles o empréstimo de cinco, ou seis milhões, que ainda ilegível não obstante chegar a salvamento o convoso (sic).

Se aumentará logo o rendimento da Real Fazenda com a capitação deles.

Dá industria e especulações no comércio dos judeus se poderam esperar as grandes vantagens do Porto franco.

Concedendo-se-lhes terras incultas se terá pronto aumento na Agricultura, a qual sem fundos consideráveis, não se pode esperar.

As imensas riquezas, que muitos destas famílias possuem, adquiridos com o comércio, são bem conhecidas.

6- reformando alguma cousa o Regimento, que lhes deu o Sr. rei d. João I, e o que tinham pelo seu governo particular debaixo do Arraby Mor, e Magistrados públicos, e o que há de melhor naquele de Roma, e Veneza; se poderam os judeus domiciliar neste Reino sem opor-se a polícia geral da Nação.

7-E para sossegá-los do horror, e medo em todo o tempo da intolerância; querendo-os de novo aceitar; seria então indispensável restituir aos Bispos o seu antigo, e próprio Direito de vigiar sobre a pureza, e conservação da nossa Religião; estabelecendo-se também para o castigo (sic) a imitação dos venezianos um tribunal para a Blasfêmia.

Assim com o Porto Franco, e restabelecimento dos judeus se aumentará a povoação, e riquezas deste Reino, o cujo reinado será sempre na História das Nações celebrado: esta dispersa Nação protegida tanto por um sábio, e grande rei, qual foi João I; achará em um João VI, outro Patrono, restituindo-a a sua antiga Pátria.”

 

1 Povo originário da Judéia, também chamado israelita, que foi expulso da sua terra natal por volta do ano 70 d.C., dando origem a diáspora judaica ou dispersão dos judeus pelo mundo. Constantemente sujeitos a perseguições, os judeus eram difamados como usurários, assassinos, ladrões, feiticeiros, etc. A presença do povo judeu no mundo ibérico foi bastante conturbada: expulsos pela Inquisição espanhola em 1492, também enfrentaram a Inquisição em Portugal, após o casamento entre d. Manoel I e Isabel, princesa espanhola filha dos reis católicos. Entre as diversas leis contra os judeus, que foram publicadas nessa época, destaca-se o édito de expulsão de d. Manoel I. A partir de então, milhares de judeus foram forçados a converter-se a fé católica, tornando-se os chamados “cristãos-novos”, mudando inclusive, seus nomes, ainda que tenham conservado, em segredo, a sua identidade. Nas várias perseguições sofridas pelos judeus, seus bens foram confiscados e saqueados, suas mulheres condenadas, como hereges, à fogueira. Com relação ao Brasil, os judeus aqui chegaram já em 1503, na condição de “cristãos-novos”, impulsionando o processo de colonização. Com a chegada de um Inquisidor Oficial no Reino, em 1531, e com a realização do primeiro “auto-de-fé” em 1540, o Brasil tornou-se uma terra de exílio, para onde eram transportados todos os réus de crimes comuns, bem como judaizantes (aqueles referentes à prática secreta da fé judaica mesmo na condição de cristãos-novos). No século seguinte, a Inquisição já se fazia presente também na América. Ainda hoje, o povo judeu mantém a sua unidade através das histórias, tradições e cultos religiosos, independente do idioma ou da nacionalidade de cada indivíduo. A diáspora judaica chegou ao fim em 1948 com a proclamação do Estado de Israel.

2 A expulsão dos judeus da península ibérica aconteceu no final do século XV. Representou na época a tentativa de cristianização da região, uma vez que os judeus que conseguiram sua permanência foram convertidos à fé católica, sendo chamados então de “cristãos-novos”. Mesmo assim, durante todo o período da Inquisição, estas pessoas foram vigiadas e por vezes perseguidas, uma vez que a Igreja desconfiava na idoneidade da recente conversão.

3 Denominação dada pelos ibéricos aos árabes, que tinham invadido a Península Ibérica no século VIII d.C. e lá permaneceram até 1492, os quais eram tidos como infiéis. A palavra mouro fazia menção àquele que não era batizado e, portanto, não possuía a fé cristã, e que era proveniente das regiões do Oriente Médio.

4 O arrabi-mor era o magistrado principal do sistema judicial seguido pelas comunidades judaicas, o qual era representado pela figura dos “arrabis”. Subordinados ao arrabi-mor, os arrabis julgavam com base no direito talmúdico. Contendo a doutrina tradicional do judaísmo, o Talmud representa para o povo judeu a conservação dos seus costumes e da unidade, através de estudos diários iniciados durante a educação das crianças.

 

Sugestões de uso em sala de aula:
Utilização(ões) possível(is):

- No eixo temático sobre a “história das relações sociais da cultura e do trabalho”
- No tema transversal “pluralidade cultural”


Ao tratar dos seguintes conteúdos
:

- A formação da sociedade colonial
- Sociedade colonial: práticas e costumes
- A Contra-reforma e a Santa Inquisição: conseqüências no mundo ibérico
- Relação Igreja e Estado: ações e conseqüências da propagação da fé católica

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